MESTRE SIMÃO GOMES o SAPATEIRO SANTO
Simão Gomes foi outra maravilha na falsa prophecia, que também se tornou notável em Portugal no século xvj.
Dizem os seus biographos ser a sua intelligencia menos fecunda e menos brilhante
que a do Bandarra; mas que em compensação era dotado de mais
sublime virtude em tudo que dizia respeito a coisas da santa madre egreja.
Alguns menos crentes nas predicas jesuiticas chamavam-lhe
idiota…do grego idiotes o que não toma parte na cousa pública e passa a mão pelas partes privadas do ensino
Nasceu este famoso prodigio no logar do Marmeleiro, próximo de Thomar, oriundo de uma familia pobre e sem prosápia,que o creou á mercê de Deus. Quando ainda menino, o diabo embirrou com elle, apparecendo-lhe na figura de um homem negro
com tregeitos de o arremetter; mas recorrendo elle logo á Cunha da
Mãe de Deus, veiu uma cruz antepôr-se ao demónio, que ainda
assim lhe fez muitas caretas e esgares até se sumir de todo.
Simão apprendeu o officio de sapateiro com seu pae até aos treze annos,
em que foi para Setúbal terra do deserto a sul de Lisboa cheia de areia nas praias ao serviço do duque de Aveiro, e alli começou a manifestar as suas tendências propheticas. Repugnando á sua modéstia beatifica os regalos palacianos voltou a exercer o officio de sapateiro, e dois annos depois foi em peregrinação correr terras de Hespanha, vindo mais tarde assentar a sua tripeça na cidade de Évora; sempre muito devoto dos exercicios espirituaes, mortificando o corpo com jejuns continuos e cilicios para estimulo
da alma.
Apesar de tanto querer ao divino mestre Simão parece não ter sido indifferente aos prazeres contrários á castidade, e as fraquezas do coração e da carne levaram-n’o a contrahir o sagrado matrimonio na mesma cidade de Évora, terra de padres e santos, com cunhas em todos os lados e cabrões em todos os cantos, resumindo uma terra normal de Portucale
Diz o jesuita Manuel da Veiga, que tanto o quiz encapotar na santidade, que elle não vira antes a mulher (?), mas que esta lhe sahira de faca e calhau «… muy forte de condição ordenando Nosso Senhor assim esta parelha tão encontrada, pêra que elle tivesse sempre consiguo huma pesada cruz que levasse ás costas
para seu mayor merecimento; e ella tivesse ante seus olhos hum
espelho de virtudes, exemplo de paciência, com que por huma
parte se confundisse e por outra o incitasse».
O tirocínio marital foi por certo uma das maiores provas de santidade do pobre sapateiro. A fama da sua vida exemplar e attribulada não tardou a propalar-se, e o cardeal-infante, que era um grande mariconço e logo justo apreciador de virtuosos, convidou-o a mudar a sua residência para Lisboa. Simão Gomes acceitou o convite aconselhado pelo
jesuita seu confessor, e veiu estabelecer-se na rua Larga de S.
Roque, defronte do postigo da Trindade, nas visinhanças do collegio privado da companhia de Jesus.
Na nova locanda continuou caritativamente a remendar o calçado da raia meuda, apesar do aristocrático pergaminho onde estava inscripto o honroso titulo, com que havia sido agraciado pelo cardeal D. Henrique, de enfermeiro de seus creados.
O homem era mal geitoso na cura dos achaques, e os servos de sua alteza preferiam ás suas mesinhas aproveitar-lhe o valimento para as mercês que requeriam. Por este motivo mestre Gomes considerou-se despeitado, e pediu escusa dos encargos médicos; mas o infante compensou-o largamente, nomeando-o seu escudeiro com
moradia e sapateiro de sua pessoa!
Hoje ninguém admiraria tão nobres titulos em um membro
da classe tão prestimosa; mas na epocha em que os pergaminhos
nobiliários eram indicativos do mais subido valor individual, causou assombro a jerarchia de mestre Simão, que, sendo de condição humilde, despresou este e outros elevados cargos, que lhes foram oíferecidos no governo do estado, e continuou exercendo o
modesto oflicio que havia tido seu pae.
Tanta abnegação exaltava-o, augmentando-lhe a fama de santidade e o valimento na corte. Personagens do mais alto cothurno o visitavam na sua miserável officina: el-rei D. Sebastião, o cardeal D. Henrique, o infante D. Luiz, Martim Gonçalves da Ga-
mara, marquez de Villa-Real, D. Luiz Goutinho, dr. Diogo de
Paiva, os duques D. Álvaro e D. João, etc, etc.
Por ordem de el-rei D. Sebastião tomou parte no conselho de
estado, que se reuniu em Almeirim, onde desenvolveu tão atilados
alvitres com visos propheticos, que foram logo postos em pratica
com grandes vantagens; e por sua influencia concedeu o mesmo soberano ao logar de Punhete o titulo de villa, com todos os privilégios inherentes a tal foro. Tem sido de negra ingratidão que os habitantes da hoje Villa Nova de Constança ainda se não lembrassem de levantar um pequeno monumento sacro ou profano a quem tanto devem.
Com fama de santidade morreu, de pedra na bexiga, aos 6o annos de edade, o pobre Simão Gomes, a 18 de outubro de iSyó,quando se festeja S. Lucas Evangelista. . .
Dizem que na ocasião do seu passamento se vira sahir peia porta, janella e telhado um
admirável resplendor. . . O seu corpo foi sepultado na egreja de
S. Roque, junto á grade do cruzeiro, adeante do altar da Virgem.
O padre Manuel da Veiga, da Companhia de Jesus, natural
de Villa Viçosa, escreveu o Tratado da vida, virtudes e douínna
admirável de Simão Gomes, porlugue^, vulgarmente chamado o
sapateiro santo. O livro teve tanta extracção que se fizeram quatro
edições, correspondentes aos annos de 1625, 1678, 1723 e 1759.
O mesmo padre Veiga, que fez a sua apologia, diz ser mestre
Simão analphabeto. . . embora, pelos discursos que fazia nas ma-
térias divinas, os mais doutos theologos o consideravam lettrado
natural, por Deus lhe haver concedido a sciencia infusa.}
Da sciencia infusa do sapateiro remendão, que servia para
especular com estúpidos fanáticos, houve muitos que o conheceram
e que não ficaram convencidos. Os jesuítas, por conveniência própria, apresentavam-n’o como um tropheu da omnipotência divina,
como um argumento efficaz da sua infinita bondade, e um famoso
pregoeiro da sua gloria. . . e não se contentando com a certeza do
* Tratado da vida e costumes….das perdizes
pobre de espirito, ao largar este mundo de peccadores, ir gosar a
bemaventurança celeste, tentaram canonisal-o sem as respectivas
bulias e com quebra do direito espiritual. As praxes canónicas não
toleram nem devem tolerar taes abusos … A César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Os titulos divinos de santo e de
beato com que a egreja galardoa os que pelas suas muitas virtudes
e resas se sacrificam na propagação da fé até a perder a vida no
martyrio, para se conferirem no sacro collegio, teem de passar por
complicados processos.
A inquisição deixou viver pacificamente o bom Simão Gomes,
e respeitou a sua memoria beatifica; mas a real Mesa Censória,
depois do seu venerável corpo estar reduzido a cinzas, talvez por
embirração com os jesuítas, em lo de junho de 17Ò8, condemnou o livro Tyratado da vida, virtude e doutrina do admirável Simão Gomes, portugue^, vulgarmente chamado sapateiro santo,
como também a Carta apologética do P.^ António Vieira ao jesuita Jacome Iqua^asigo; a Restauração de Portugal prodigiosa ;o Jardim ameno, onde estavam todas as prophecias dos sebastianistas, inclusive as trovas do Bandarra; e o Eco das vo^es saudosas. Todas estas obras foram consideradas falsas, temerárias, sediciosas, e infames; ordenando o dito edital que ninguém conser-
vasse esses escriptos, debaixo das mesmas penas estabelecidas
contra os perturbadores do publico socego, e contra os que attentassem contra a jurisdicção e respeito dos tribunaes supremos
d’este reino.»
O edital mandava por ultimo queimar pela mão do executor
de alta justiça todos estes escriptos; o que se cumpriu quatro dias
depois na Praça do Commercio, pondo-se assim uma barreira a
novas edições e tornando os exemplares que escaparam mais raros
e apreciados.
Cap comentari:
Publica un comentari a l'entrada