multidão política que se encosta em Costa que se enquista ... a multidão é infantil; o ruído repetitivo e a música favorecem a existência da multidão Mais uma vez o sonho dos homens ia ser levado pela mão da velha hidra.” Na multidão seguem soldados imberbes, “contentes de se sentirem aclamados” e, mesmo os inquietos, são “levados no contágio impetuoso das fileiras, na estridência atordoadora da música e dos gritos”
Depois do som, também a visão se torna clara: Albergaria identifica as fardas regimentais. “Agora, toda a rua está em festa, de janelas abertas. Um frenesi de aclamações contagia [na 1ª ed., 457: estremece] todos os espectadores”, num “vento impetuoso de loucura, que desorienta os espíritos, o filósofo sente-se opresso de terror e angústia”. Tal como Basílio Teles, este Albergaria ficcional percebe que a multidão não está dirigida politicamente: “Os chefes, onde estavam os chefes?” Sem eles, como vai a multidão “melhorar com os seus clamores, entre o delírio bestial e torvo da canalha? Qual é o seu amanhã? Que vão eles construir – os soldados e o povo, a calceta e a caserna – sobre os escombros sanguinários da revolta?”
À lembrança do pai morto pelo sonho que a “soldadesca inconsciente ia agredir”, Albergaria “gesticula e berra aos soldados que passam”: “que importa a república, se o mal está convosco? Ides combater a lepra e sois uns leprosos! (...) Antes soubésseis ler! Para os quartéis!” Sem direcção, a multidão ignara não pode senão levar à catástrofe. Mas “os clamores abafam-lhe os gritos como um grande mar correndo sobre areias”. Ninguém o ouve, há gente curiosa que olha “aquela múmia abençoando os soldados
o liberalismo estiola, como prova o próprio protagonista, incapaz da acção, incapaz de terminar a “Obra”, incapaz de se opor à mulher, mesmo quando manda o filho mais novo para o seminário, o que faz da criança “um monstro”. Politicamente, o romance traça uma tragédia: não havendo uma nova vida para a monarquia liberal, a solução é a do domínio dos ultramontanos nos campos (e quase todo o romance decorre no Minho) e da ascensão do republicanismo na cidade.
é notável que as três cenas de multidão no romance, uma em cada um das três partes da obra, sejam fulcrais para a definição das forças em terreno no século XIX liberal: a primeira cena, quando João de Albergaria nasce, em 1826, no Porto; a segunda, no campo, quando um incêndio interrompe a criação de uma nova casa agrícola pelos representantes da juventude liberal; a terceira, quando, da sua casa no Porto, João de Albergaria ouve a multidão republicana do 31 de Janeiro na rua, morrendo nesse momento. Sem que o autor estabeleça uma relação, estas três multidões articulam-se entre si, dramática e politicamente. Concentraremos a análise na terceira cena, mas vale a pena referir as duas primeiras aparições da multidão no romance, bastante menos desenvolvidas, aliás.
Como dissemos, Albergaria nasce sob o signo da revolução e da multidão:
“No dia 31 de Junho desse ano de 26, às três horas da manhã, D. Teresa sentia as primeiras dores da maternidade, e ao tempo em que as salvas de artilharia enfumaçavam as alturas de Gaia e da Torre da Marca, saudando a aurora da Liberdade, uma parteira do Bonjardim aparava a criança, que logo na semana seguinte era baptizada em s. Martinho de Cedofeita com o nome de João, em homenagem a Saldanha. Os seus primeiros vagidos foram cobertos pelas aclamações do povo, que atrás das tropas, depois da parada do campo de Santo Ovídio, seguia pela Rua do Almada até à Sé, a ouvir o Te Deum”
Burgueses, aristocratas, populares e também eclesiásticos tinham convergido na aclamação do novo regime, mas logo “o povo, que não leu os filósofos, encolhe os ombros a essa obscura promessa de liberdade” e a “revolução social dos idealistas vai-se deformando na agitação sangrenta da guerra civil” . O liberalismo,
“tintado pela teoria individualista de Mouzinho, pelo idealismo democrata de Passos e pelo doutrinarismo tirânico de Costa Cabral, desabava na corrupção e no desprestígio. O direito de voto era uma burla a serviço de déspotas; a base moral de todo o edifício político – um sofisma. Já os puros recolhiam aos lares, confrangidos e desalentados.
Três sistemas tinham falhado.”
Era o “desastre” .
Albergaria é um desses puros. Na sua propriedade, vive para si, lendo e escrevendo sem publicar. Entre as leituras, constam autores de “assuntos de criminologia”, ramo científico que primeiro se interessou pelo estudo da multidão, sendo referido especificamente que em cima da mesa de Albergaria está aberto L’Uomo Delinquente, de Lombroso
Passemos à multidão rural. Clara, filha de um amigo liberal morto e sem mais família, é recolhida por Albergaria. Será a futura nora de Albergaria; ela pretende estabelecer-se na propriedade próxima da Moita. Faz obras e começa a criação de gado. A casa está quase pronta, mas certa noite declara-se um incêndio. Clara, o noivo e o futuro sogro acorrem à propriedade. Pelo caminho cruzam-se com duas figuras que fogem do local, ficando a dúvida se um deles não seria o próprio filho mais novo de Albergaria. Isto é, o lado ultramontano da família impede os liberais de se estabelecerem no campo. O incêndio consome a casa inacabada e mata o gado. “Em volta da casa, pelos socalcos da vinha, a multidão apinhava-se, alumiada pelo clarão da fogueira. Às vezes uma brasa caía entre o magote, dispersando o coalho zumbidor.”
A “chusma expectante dos socalcos” saberá quem ateou o fogo? Tal não é referido, apenas insiste na inocência dos caseiros.
A casa soçobra antes da chegada dos bombeiros:Com enorme fragor, o resto dos travejamentos aluíra, sacudindo de encontro às paredes mestras, perfilando ainda como um monstruoso bocal de chaminé. Houve um instante de pânico na multidão: Clara e Albergaria sentiram-se empurrados. Faúlhas ardentes caíam. A carcaça denegrida da Moita, flamejando como uma cratera, alastrava pelo céu o negrume de uma fumarada espessa, e os eidos recomeçaram a arder num grande fogacho sanguíneo. ninguém mais se entendia. Pelos socalcos da vinha homens e mulheres trepavam desatinadamente.
Ouviam-se choros de crianças e latidos furiosos de cães.
− É melhor irmos, tio. É melhor irmos – pedia Clara, dependurada do braço do filósofo”
“Na torre da Lapa tinham soado, havia momentos, as duas horas. No silêncio da noite passou um longo rumor, ritmado e ecoante, vago a começo, e que foi lentamente crescendo e vibrando, até atingir a cadência distinta de uma multidão em marcha” Na primeira edição, Dias não usou o vocábulo multidão, preferindo uma descrição mais longa: “... crescendo e vibrando, como uma escala cromática, até atingir a cadência distinta de uma pesada massa de homens em movimento, no passo ginasticado das marchas militares” Albergaria tenta dormir sob aquele som de fundo, mas passam-lhe “sombras ... pelo turvo enredo do seu cérebro”, momentos marcantes da vida em que “havia reconstituições instantâneas do passado”, incluindo pânico nas ruas, incêndios, “batalhões que marchavam, clarins vibrando ... e ao longe, numa cidade de pesadelo, o dobrar de grandes sinos tangendo a rebate”. Passam cavalos na rua. Albergaria acorda. O “singular ruído” dos sinos no sonho pouco a pouco “atingia a nitidez de uma realidade. Era como o burburinho compacto de uma turba, a inquietação de uma cidade em alvoroço, acordada alta noite por uma invasão ou um massacre
um blouko de livres feito em livres directos e à baliza desde o tourel ao batel que espera por dom Manuel 2º ou 3º tanto faz
dimarts, 16 de setembre de 2014
O romance retrata a decadência do liberalismo político através de uma família e particularmente do protagonista, o filósofo João de Albergaria. João Gaspar Simões, que considerou este romance “a obra-prima” do autor, refere que o enquadramento histórico que Malheiro Dias dá ao romance pretende comentar a época em que publicava o romance, pelo que “se Os Teles de Albergaria não são, de facto, um romance histórico, são pelo menos o romance da agonia de uma ideia histórica: a agonia do constitucionalismo monárquico” (Simões, 1987: 664-5). João Albergaria nasceu na casa dos pais, que ficava na Rua do Almada. Nasce em 1826 em plenas lutas liberais contra o absolutismo, filho dum combatente liberal que morre na guerra civil. Albergaria é um “fraco” (16) contemplativo; prepara ao longo da vida uma “Obra” que acaba por destruir. A mulher é uma beata e permanente opositora do marido. Um dos filhos é liberal, e depois de (mais) uma eleição falseada (tema recorrente do realismo português), segue para deputado embora sem qualidades políticas de monta porque a única solução do regime era “viver-se de empregos públicos” (41); o outro filho é educado pela mãe no fanatismo religioso, acabando a cometer um assassínio. Ao longo do romance entende-se que o reaccionarismo ligado ao catolicismo é pujante e está implantado no país: só através da “impudica farsa eleiçoeira” em que “até defuntos tinham votado” se podia eleger um liberal, mas “o povo ter-lhe-ia preferido o padre, se o tivessem deixado livremente votar”no instante em que desceu a Rua do Almada a multidão de civis e de tropa sublevada não tinha uma direcção eficaz, havia nela, pelo menos na parte civil, um lado espontâneo que permitia uma exuberância festiva e um carácter genuíno e que a tornava perigosa em potência, precisamente por se desconhecer o que pode resultar de uma multidão não dirigida; segundo, naquele preciso instante histórico, a multidão está convencida da sua força (como costuma estar sempre uma multidão), julga-se invencível e, portanto, vitoriosa.Já outros toques de clarim vibram, imperiosos, nessa linguagem estrídula dos combates (...). Um relógio da torre bateu devagar as quatro horas. (...) Prosseguiam os toques declarim. Recrudescia o vozear da multidão. Agora, a cada momento, o tropel de cavalos fere as lajes da rua. (...) Os sinos da torre da Lapa ululam sempre, entoando o alarme de uma revolução ou de imensa catástrofe.” Albergaria percebe “a terrível verdade”: prepara-se um motim ou uma revolta, mas ainda não sabe “de quem e contra quê”. Para Albergaria, o povo não tem “consciência dos seus ideais e dos seus direitos”o inquieto formigueiro que se agita ao alto da rua”, ouve clarins e a “sonoridade ainda abafada de um hino”, e logo “o formigueiro humano (...) cresce e ascende por entre o nevoeiro”. E são ainda sons que Albergaria agora vindo em sua direcção: “O ruído de passos de uma multidão em movimento invade a rua do Almada. Um colossal clamor, vindo do Campo [de Santo Ovídio] sobe nos enevoados ares, como a aclamação de um povo de crentes a uma divindade prestigiosa: − Viva a república! E em turbilhões dispersos o brado ecoa: − Viva a república! Viva a república! Bandos de garotos, desvairados por aquele brinquedo monstruoso, correm à frente. Uma banda de música vem tocando desordenadamente A Portuguesa” (208). Este nevoeiro não traz aqui promessas sebastianistas. A “neblina espessa” envolve a multidão “como um visão de pesadelo”. Chegam os militares, que assim se juntam ao povo: “parece um préstito de triunfo aquela procissão de homens em armas, escoltados pelo povo que canta” A Portuguesa (209). As “ondas de populacho” que crescem e são de novo transformadas em “multidão” que se precipita, “excitando os soldados”.a multidão é sinónimo da cidade; Albergaria é um voyeur da multidão; a multidão é prenúncio de mudança, e mudança negativa, apesar de no passado ter sido anúncio da chegada do liberalismo; a multidão é uma manifestação do povo manietado; a multidão tem tendência a crescer; a multidão transforma em inútil a obra do pensamento; a multidão vem do desconhecido (um nevoeiro que aqui é mau) e origina algo de desconhecido que o protagonista não sabe identificar (“revolta de quem contra quê?”); a multidão tem algo de religioso
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que declaram rosa calmon da gama estrábica
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