O alemão, porém, é reflectido, sabendo tirar dos acontecimentos as lições infalíveis.
A indústria, ciência, a arte, a filosofia vão tornar-se para ele um novo e alto imperialismo. A sua acção neste campo deve ser notabilíssimo. A sua cultura deixará de ser agressiva. A Europa e com ela o mundo pertencerá às nações mais cultas. A Alemanha conta com um lugar de destaque. E eu que vivo da minha pena de escritor, apreciando, portanto, mais a paz que a guerra, saudarei nela a libertação da humanidade
Um exemplo ilustrativo é o modo como Aquilino introduz as suas observações sobre a revolução republicana na Alemanha: Entro para um táxi na Bremer Str. e dou o endereço: - Biblioteca Imperial... - Biblioteca Imperial não sei o que seja - responde-me o
chauffeur
, fazendo uma careta. Ora essa! ... Biblioteca pública... onde há muitos livros... - Biblioteca Nacional, quer o senhor dizer...? Isso sei o que é. Um taxista que pouco depois de um ano, já não sabe (ou finge não saber) o que era a Biblioteca Imperial é um dado muito concreto para ilustrar as profundas alterações políticas que houve na Alemanha depois da Grande Guerra. Aquilino mantém ao longo do seu diário esta procura e apresentação de dados concretos e significativos. Um outro exemplo muito ilustrativo é a maneira como Aquilino faz sentir o sofrimento que a Grande Guerra trouxe para a população alemã, exemplificando-o numa só rua: O meu guia vai-me [...] avivando a memória: "Ali naquele rés-do-chão, de porta negra e cerrada, morava um vesteiro. [...] A terra da Flandres come-lhe o rapaz e o velho morreu de paixão. [...] Mais adiante, era Max, mecânico de bicicletas; morto diante de Liege. À esquerda certo velho fotógrafo [...] Dois filhos varões que tinha ambos a guerra lhe levou. Andando sempre e às duas bandas tinham morrido: um filho à dona do estanco de tabacos, na Rússia [...], o marceneiro da esquina na Flandres; e quase ao fundo, aquele edifício [...], Correios e Telégrafos, converter-se-ia em necróploe se lhe depositassem dentro as ossadas daqueles que ali serviam e foram ceifados pelo aço. Como não, se a Alemanha no último ano de luta sofria cerca de cem mil baixas por mês? Se o total dos mortos supera dois milhões?
Este D. Alonso Gomez, de Montevideu, que esposou uma menina de Parchim, da qual se enamorara na Suíça ao tempo que estudava engenharia eléctrica e ela polia o seu francês, fala pelos cotovelos. Vamos pelos campos fora, sem destino, e conta-me a história negra dos seus dissabores nesta Alemanha outrora celebrada pela rectidão das leis e a seriedade dos homens. (Ribeiro, 1934: 146)
A "história negra dos seus dissabores" que o espanhol conta tem que haver com uma herança que os familiares da esposa recusam injustificadamente reconhecer. Ora são os "negócios de família" que o escritor tinha mencionado na entrevista com o jornal
A "história negra dos seus dissabores" que o espanhol conta tem que haver com uma herança que os familiares da esposa recusam injustificadamente reconhecer. Ora são os "negócios de família" que o escritor tinha mencionado na entrevista com o jornal
A Pátria
. É óbvio que por trás do espanhol Alonso Gomez de Montevideu se esconde o Aquilino Gomes Ribeiro das montanhas de Viseu. No caso de
Alemanha Ensanguentada
é importante salientar: O autor não pretende exprimir a sua opinião sobre a Alemanha, mas sim permitir, ao leitor, uma reflexão justa e ampla sobre o assunto. Se compararmos a opinião de Aquilino sobre a Alemanha em documentos mesmo particulares com a imagem pública que o autor constrói no seu livro, verificamos uma diferença significativa. Numa carta inédita a Raul Proença escreve, por exemplo, de Berlim: Estamos passando dias bem tristes. É verdade, mas deixe-me dizer-lhe que o meu germanofilismo sofreu muita correcção. A verdade obriga em muitos pontos, a desestimar o que estimava. A Alemanha não tem razão em muita coisa; as acusações dos aliados, muitas são legitimas e com fundamento. Mas expoliam-nos em excesso, e é outra verdade.Quando o escritor escreveu o seguinte passo em 1920 obviamente ainda não sabia que Hitler ia tomar o poder: Se aparecer um aventureiro, resoluto e de maus fígados, que se confine numa vaga e apocalíptica ideologia, que bata o pê ao vencedor, misto de Anticristo e de Lohengrin, tem povo. Vencida, mas não derrotada, a Alemanha quando puder voltará a desembainhar a espada, no que, de resto, não faz mais que obedecer à estúpida condição humana." Em 1934, quanto o livro saiu, o aventureiro, "misto de Anticristo e de Lohengrin", já tinha aparecido, sem que se pudesse saber ainda quais as verdadeiras dimensões de terror que "o fenómeno estupendo da Alemanha hitleriana", como Aquilino escreveu no prefácio, ia atingir. Mas mesmo em relação a uma nova guerra o livro não deixa muita dúvida: Não sei, mas estou em crer que da paz fortificada tão torpemente em Versalhes ou sai uma Alemanha com todos os instintos da fera que foi traquejada, pronta a dar o salto no momento oportuno, ou
uma Alemanha que há-de acabar por se entregar a Lenine de alma e coração.
uma Alemanha que há-de acabar por se entregar a Lenine de alma e coração.
Par-delà la France et l'Allemagne : Gonzague de Reynold, Denis de Rougemont et quelques lettrés libéraux suisses face à la crise de la modernité
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