Como a metropole da India
portugueza, não havia terra mais de feição para chibantes. Escrevia
Francisco [41] Rodrigues da Silveira: «Dentro em Gôa se cortam braços e
pernas e se lançam narizes e queixadas em baixo cada dia e cada hora, e
não ha justiça que sobre o caso faça alguma diligencia: dando por razão
que o não permitte a India, porque cada qual pretende satisfazer-se por
suas mãos de quem o tem aggravado
Baçaim
tomou tanta posse com os poderes que lhe vossa alteza mandou, que faz
mercês em seu nome, como o vice-rei; vi-o por dous mandados seus; fez
escrivão da fazenda a que poz de ordenado cento e cincoenta mil reis,
sem licença do vice-rei, e mandou-lhe logo pagar um anno de antemão;
paga quanto soldo quer... E comquanto vossa alteza defendeu por sua
provisão que os capitães de Baçaim não cortassem madeira, não o quiz
Francisco Barreto deixar de fazer, mas antes pediu ao vice-rei, depois
de a tirar, que lh'a tomasse para vossa [53] alteza por avaliação; e
custando-lhe a corja de dezoito até vinte pardáos, lh'a avaliaram a
cincoenta e oito pardáos em que se montou perto de dezoito mil pardáos
de ouro, que se fez bem a sua a vontade; e assim tinha certos cavallos
seus, e vende-os no soldo, para que tambem lhe o vice-rei deu licença
para se pagar d'elle, o qual comprou, em que se montou seis ou sete mil
pardáos; e dizem alguns que estavam concertados elle e o feitor sobre
estes ganhos, e por se agora desavirem se souberam estas cousas e
outras, e mal pela fazenda de vossa alteza...[13]». Aqui está o perfil
do tão encomiado Francisco Barreto que poz em justiça Luiz de Camões.
D'aquelle governador diz magnanimamente o snr. visconde [54] de
Juromenha: homem por todos os respeitos mui digno de occupar um lugar
tão elevado... E não acha motivo para que o poeta o censurasse
apaixonadamente[14]. Chama-lhe «joven», e o snr. Theophilo Braga tambem
adjectiva de joven o governador. Porque? Francisco Barreto em 1548 sahiu
do reino capitão-mór de tres naus. Tão importante cargo não era dado a
moços. Nove annos depois era provido no governo da India. Orçaria por
perto dos cincoenta annos--uma juventude realmente duvidosa.
um blouko de livres feito em livres directos e à baliza desde o tourel ao batel que espera por dom Manuel 2º ou 3º tanto faz
dijous, 23 d’octubre de 2014
As portuguezas cahem de maduras, ou porque a lascivia as sorvou antes de sazonadas, ou porque vem ao chão de velhas:--é opiniativa a intelligencia do conceito picaresco. As indigenas são pardas como pão de rala, tem uns palavriados que travam a hervilhaca, e gelam os mais escandecidos desejos. São carne de salé [42] onde amor não acha em que pegue. Lembra-se das lisboetas que chiam como pucarinho novo com agua, e manda-lhes dizer que, se lá quizerem ir, receberão das mãos das velhotas as chaves da cidade. De envolta com estas prosas facetas, envia um soneto e uma ecloga funebres á morte d'um amigo. Esta carta encerra a nota melancolica d'uma phrase de Scipião: Patria ingrata, não terás meus ossos. Mas a comparação, para não ser um dislate d'orgulho, era de certo um gracejo de Luiz de Camões. Que lhe devia a patria em 1553? Elle tinha 30 annos; escrevera poemas lyricos excellentes, apenas louvados na roda dos palacianos e dos menos cultos. Ferreira e Sá de Miranda parece que não o conheciam. O bravo que sahira do carcere com perdão de Gonçalo Borges a quem golpeára o cachaço, ou [43] o toutiço, como disseram os physicos do exame, em verdade, confrontando-se com Scipião Africano, ao desterrar-se, não primava em pontos de modestia. O seu avantajado e indiscutivel direito á gratidão da patria era um poema começado apenas, ou talvez ainda não tracejado. Camões tem ante si dezeseis annos para pleitear com Vasco da Gama a imperecedoura glorificação que lhe prepara. A patria desconhecia ainda o seu grande acrédor que se estava germinando no cerebro potentissimo d'aquelle seu filho--unico filho que todas as nações cultas conhecem, e o maximo na immortalidade que tem de sobreviver á terra que cantou. Os feitos valorosos de Luiz de Camões na Asia não tiveram a notabilidade que os chronistas do Oriente e de D. João III deram a lances insignificantes de homens [44] obscuros. O diffuso author das Decadas, Couto, apenas o nomeia n'uma crise de pobreza convisinha da mendiguez. Os antigos biographos e commentaristas não o condecoram como quinhoeiro nos fastos das carnificinas memorandas. Seria grande elogio á primorosa probidade de Camões o excluil-o d'esses canibalismos, d'essa ...... bruta crueza e feridade, Notas d'arte Author: António de Lemos PORTO TYPOGRAPHIA UNIVERSAL (a vapor) Travessa de Cedofeita, 54 1906 Ao INSTITUTO de ESTUDOS e CONFERENCIAS Á SOCIEDADE de BELLAS ARTES pelo que podem fazer em bem da Arte. [Figura: (Esboço para um retrato) VASCO FERREIRA] NO LIMIAR _O philosopho Taine, dizia, ha bons vinte annos, no seu Curso Esthetico para a Escola de Bellas-Artes_:--A Arte é o reflexo dos costumes. _E, de facto, assim é. A Arte vae evolucionando sempre na ordem directa do aperfeiçoamento e da illustração dos povos_. _Assim, quanto mais illustrado fôr o publico, tanto mais perspicaz, mais estudioso e mais observador deve ser o artista, para que tenha o applauso geral e sincero a obra que executou e apresenta. E, é mesmo por isso que entre nós, os artistas, pintores e esculptores, dia a dia fazem, na incessante lucta pela vida, os esforços mais lidimos e mais honrados para resolverem esse enorme e sublime_ desideratum:--_ser grande!_ [Figura: (1904) Caricatura do dr. M. Monterroso] _Infelizmente nem todos o podem conseguir. E, não o conseguem, porque para isso não são precisas só a boa vontade e a persistencia no estudo. Alguma coisa mais lhes é necessaria, e essa, primacial:--ter talento!_ _Felizes os que teem esse delicioso e bello predicado; porque esses, vão gloriosamente para diante e são verdadeiramente grandes_. * * * * * _Ha alguns annos, poucos ainda, a pintura entre nós era uma especie de_ Arte mystica, _que apenas raros tentavam, n'um arroubamento de eleitos_. _Esses mesmos, faziam a pintura a seu modo, dentro de restrictas e acanhadas normas, sem pensarem sequer que o_ fluido ether _que nos cerca e enche triumphantemente toda a natureza, em pulverisações vibrantissimas de luz e de côr, precisa de ser estudado e quiçá pintado_. _Mas, se elles limitavam os ambitos do seu modo de executar, era que o publico tambem não exigia mais, e a critica não se preoccupava absolutamente nada com isso_. _Tanto_ elle _como_ ella _eram feitos por individuos, que ao visitar os museus e as exposições de pintura não tinham a intuição nitida e verdadeira da Natureza em todo o seu explendor, como manifestação psycologica da vista_. _Habitualmente todos elles amavam a Natureza pelo simples consolo que lhes dava, quando ao domingo, deixada a cidade, iam para o campo, não para fruir o delicado encanto de admirar um bello panorama, mas... para gosar o pantagruelico prazer de devorar um gordo carneiro assado, com o seu alguidar de loiro e assafroado arroz de forno, ou a saborosa pescada frita, com negras azeitonas e fresca e appetitosa salada de alface, acepipes estes que copiosamente regavam com tinto de Basto ou espumoso verde de Amarante_. _E, se um ou outro tinha uma tal ou qual intuição artistica, porque, lá fóra, nos grandes museus do estrangeiro, tinha visto qualquer cousa que lhe fizera notar tal, esse, ficava-se n'uma banal indifferença, sem se manifestar aggressivamente contra os systemas adoptados pelos pintores do seu tempo, que apresentavam nos seus quadros composições de convenção e feitas no ar morno dos atelieres, sem a inspecção constante e immediata dos motivos a pintar.._. * * * * * _Uma Era nova e refulgente, desponta por fim, e os artistas que começavam pondo de parte os velhos preceitos archaicamente usados, saltam por sobre as barreiras das convenções e correm pelos Campos da Arte, fóra, em procura de elementos verdadeiramente verdadeiros, com que possam satisfazer as exigencias do publico mais illustrado e da critica mais independente que auctoritariamente se impõe, cheia de razão, para que nos seus trabalhos haja mais naturalidade e menos ficção_. _E, é sob este refulgir de um novo sol, que orientado lá fóra, com as mais modernas noções d'Arte, estudando nas melhores e nas mais celebres escolas de pintura do Mundo, que nos apparece, entre outros, como Columbano, Malhoa, Salgado. Sousa Pinto, Marques de Oliveira, etc., etc., o grande, o sublime Silva Porto! Aquelle que para mim é o maior dos paysagistas portuguezes dos ultimos tempos. E que, com o seu modo de ser e de ver, marca d'uma maneira deslumbrante o inicio d'essa nova Era para a pintura portugueza_. _Assombra-nos esse artista com os seus primorosos quadros feitos n'uma larguissima e franca sentimentalidade d'alma de homem de talento, exuberantes de verdade, geniaes de execução. Era um grande! Era um sublime artista!.._. _Mas, a Morte rapidamente o ceifa, avara de que elle tenha conseguido tão sincera, tão verdadeira e tão lealmente_ roubar _á Natureza verdadeiros e flagrantes pedaços do seu grandioso_ Ser, _para tão maravilhosamente os transplantar á tela_. _Ao morrer porém Silva Porto tinha hasteado, bem alto e bem firmemente, a bandeira gloriosa sob que se devia agrupar a nova pleiade dos pintores portuguezes_. _E, de facto, é sob a egide d'essa bandeira que a Arte em Portugal brilha hoje mais fulgurante, podendo pôr-se sem vergonha ao lado da Arte dos paizes onde Ella tem um culto mais largo e mais acerrimo_. _Se não em quantidade, pelo menos em qualidade, os artistas portuguezes de nome, chegam onde podem chegar os artistas notaveis estrangeiros, sem temerem confrontos_. _E isto porque Portugal d'hoje, embora os pessimistas não queiram, vae avançando intellectualmente um pouco na civilisação moderna_. _E em taes circunstancias, como dizia Taine, ha bons vinte annos_:--A Arte é o reflexo dos costumes. Antonio de Lemos (Alvaro). [Figura: Cabeça de negra (Bronze) DUQUEZA de PALMELLA] NOTAS d'ARTE 1 Impressões d'uma Exposição Ha muito tempo já, deveria ter vindo dizer da bella impressão que me causou a 1.^a Exposição organisada pelo _Instituto de Estudos e Conferencias_, mas os meus affazeres obrigaram-me, para gaudio dos meus leitores (pois critica incompetente como a minha quanto mais tarde melhor), a só hoje cumprir este dever. Fui vêr a exposição sete vezes, e de cada vez que lá ia, novos encantos encontrava nos trabalhos expostos, pois a tentativa do Instituto teve o resultado mais brilhante que podia desejar-se. Concorreram a este certamen desde os nossos melhores artistas até aos mais modestos amadores, e na generalidade todos se apresentaram dignamente, não obstante um _critico d'arte_ ter dito, em um semanario d'esta cidade, que aquelles trabalhos eram meras _chromolythographias_. Uma duvida me assalta o espirito relativamente aos conhecimentos artisticos e criterio de tal critico. Saberá elle o que são chromolythographias? Mas, deixemos a cada um o seu modo particular de vêr... e de apreciar, e vamos ao que importa... Demais, a lua está tão alta?... [Figura: José Malhoa] Vi, como disse, varias vezes os cento e dezesete quadros expostos, os dous bustos e o medalhão em marmore. Dos trabalhos de esculptura direi apenas que os dous primeiros são obra de Fernandes de Sá, pensionista do Estado, que em Paris completa a educação artistica do seu muito talento. A cabecita de creança, em marmore, é um encanto, aquella boquita admiravel de bébé pedia milhares de beijos... [Figura: José de Brito] O medalhão de Joaquim Gonçalves é uma bella copia de um primoroso trabalho do grande mestre Soares dos Reis. Agora, emquanto a quadros, ponho em primeiro logar, dôa a quem doer, os dous trabalhos de Malhoa, esse admiravel artista da Luz e da Côr. Eram um assombro os seus quadros. O _Gozando os rendimentos_, estudado com cuidado e traçado largamente, empolgou-me por completo e fez-me gosar, conjunctamente com o personagem estudado, toda aquella commodidade natural de bom burguez que procura um amplo jardim publico para fazer socegadamente o seu chylo. Esta impressão forte que tive, confesso-o, foi devida talvez ao meu burguesismo. [Figura: Que grande calamidade--JOSÉ MALHOA] No _Que grande calamidade_, as figuras trabalhadas com um rigor de verdadeiro mestre, são flagrantes na sua dor, ao verem o seu querido porco, morto na pocilga. Talvez que, se entre as cabeças das figuras e o rebordo do caixilho houvesse um pouco mais de tela, mais imponentes ellas ficariam. E depois d'isto, de ter dito o meu modo de pensar sobre tão primorosos trabalhos, vou, salteando o catalogo, dar a nota dos quadros que mais me prenderam a attenção. Marques de Oliveira, como sempre, distinctamente. É inegavelmente um grande desenhista. As suas _Impressões de Espinho_, são bellas e tanto, que uma foi adquirida pelo Instituto por indicação do jury competente. _A Azenha_, um encanto, _Cabeça de estudo_, um primor. [Figura: Chrysantemos--ANTONIO COSTA Greno, a fulgurantissima artista, bem, admiravelmente. Então os _Pensamentos_? Esse, era uma delicia. Antonio Costa, para mim o unico pintor portuguez de flores, não desmereceu a sua grande fama e, os _Chrysantemos_ e _Na vindima_, deram-me a prova evidente da sua muita aptidão para este genero de pintura. [Figura: Candido da Cunha] Candido da Cunha, um novo de muito talento, com o seu _Ultimos raios de sol_, que já conheciamos e que foi adquirido tambem pelo Instituto, com os seus--_Mar calmo_, _Martyr_ e _Barcos de pesca_, merecem hoje, como sempre, os nossos elogios. Julio Ramos, outro novo, paisagista apaixonado e distincto, dando ás suas paisagens um tom de verdade admiravel. O _Macieiras em flor_, em especial e as outras dezeseis telas, lindas a valer. José de Brito, um mestre, talvez abusando um pouco das cores finas; todos os seus quadros são bons, mas para mim superior a todos é o _Mulher do novello_, estudo admiravelmente feito de uma velha repelenta, flagrantissima de verdade na expressão do rosto. Na _Infancia de Diana_, bello estudo do nú, alguma coisa me desagradou á vista, especialmente um cão que se via nos ultimos planos... João Augusto Ribeiro, bem nos seus pequeninos quadros _Retalhos_, _Lar_. [Figura: João Augusto Ribeiro] D. Lucilia Aranha, uma verdadeira artista, cheia de talento e de força de vontade, mais uma vez affirmou, com os treze quadros expostos, as suas aptidões artisticas. Torquato Pinheiro veio marcar n'esta exposição o seu logar definido e assente ao lado dos bons artistas. _Um caminho encharcado_, _Manhã d'Abril_, _Margens do Leça_, e todos os demais são feitos com alma de verdadeiro artista. Mas, a destacar, como primor de execução, o _Retrato de minha Mãe_, que é um trabalho notavel. [Figura: Retrato de minha mãe--TORQUATO PINHEIRO] D'entre os amadores, extremarei D. Leopoldina Pinto, com as suas flores, especialmente o _Pelargonios_, que senti não tivesse preço para ser adquirido. Mais artistas e amadores concorreram a este delicado certamen, mas, não me demorarei na enumeração dos seus trabalhos, porque isso iria ainda muito longe e os meus leitores, decerto, se até aqui chegaram, já bastante se tem aborrecido da semsaboria d'esta minha despretenciosa prosa, que do modo algum aspira ao nome de critica. II PINTORES PORTUENSES JULIO COSTA Convidado a delinear um artigo sobre o pintor portuense Julio Costa, pensei primeiro esquivar-me a tal empreza porque me julgo insignificantemente pequeno para fallar d'este artista. Mas, antepondo a esse primeiro impulso a amizade que lhe dedico, resolvi acceitar o encargo, e, tal como posso, desempenhar esta missão. [Figura: Julio Costa] Será um artigo despretencioso, sem preoccupação do estylo ou requinte de forma, um artigo modesto como eu e como o temperamento do pintor illustre de quem me vou occupar. Não conheço escolas, não discuto artistas, não cito nomes estrangeiros, nem rebusco particularidades de _metier_. Quando me occupo da pintura e de pintores nacionaes digo simplesmente, indiscretamente, a impressão que os quadros me deixam. Nada mais. E hoje, ao traçar estas linhas a respeito de Julio Costa, não venho, acreditem, fazer a apreciação, pretenciosa ou sabia, da obra d'esse pintor; venho simplesmente deixar-lhe, sob o seu nome já aureolado pela critica consciente, o laurel amigo da minha admiração. E posto este preambulo, ahi vae o que me parece dever dizer do Julio Costa. * * * * * Portuguez de nascimento e condição, alma que se espande na mais suave de todas as alegrias--a familia--Julio Costa vem, de ha tempos para cá, vivendo quasi exclusivamente para os seus parentes, para os seus discipulos e para os seus trabalhos. É um d'estes homens com quem, mesmo sem fallar, se sympathisa logo á primeira vista. É lhano de trato, affavel, de maneiras delicadas, cavaqueador emerito, tendo sempre um dito alegre para retorquir a um remoque que se lhe atire. Nunca deixa de chalacear, a não ser quando tem algum dos seus doente. Então, sim, então abate-se todo na dôr d'aquelle que soffre e deixa-se levar n'essa corrente de magua que o subjuga brutalmente. É uma luminosa alma dada ao bem e a tudo quanto é bom, e d'ahi a uncção deliciosa e meiga com que elle concebe os seus quadros de genero. [Figura: Conselheiro João Franco--JULIO COSTA] Hoje, posto em foco, pelo brilhantismo dos seus ultimos trabalhos, deve orgulhar-se de ser um dos pintores preferidos nas commemorações aos homens notaveis do nosso paiz. O retrato é inegavelmente o genero que Julio Costa mais accentuadamente trata e que mais em evidencia o tem collocado. O retrato de El-Rei pintado para o salão do Tribunal da Relação, os retratos de Oliveira Martins, Dr. Ricardo Jorge, João Ramos, Dr. Eduardo Pimenta, Conselheiro Campos Henques, Conselheiro João Franco, e muitos outros, são affirmações publicas do que digo. O primeiro, é largo de ideia, magestatico de pose, tocado de iriadas côres, pois assim o pedia o grande do personagem. Collocado no amplo salão do Tribunal toma um aspecto soberbo, que nos infunde respeito. O segundo, em que a figura de Oliveira Martins, essa imagem de santo e de philosopho, se nos apresenta sentada em larga cadeira de espaldar, em posição natural de quem entretem uma conversa, ao contemplal-o, como que se escuta a sua voz de mestre, que discreteia sabiamente sobre os intrincados problemas economicos do nosso paiz, ou sobre os notaveis factos da nossa historia. [Figura: Oliveira Martins--JULIO COSTA] E todos os outros, todos, são verdadeiras obras primas. Não esquecerei fallar do seu ultimo trabalho, do retrato do Conselheiro João Franco, o homem forte e duro que emprehendeu, n'um arranco de verdadeiro portuguez, remodelar, n'um molde novo e n'uma nova orientação, a marcha dos negocios publicos. D'esse retrato já eu disse, quando tive occasião de o ver pela primeira vez, o seguinte: «É grande, na magestade da sua tela ricamente emmoldurada, o retrato do snr. Conselheiro João Franco. «Absorve por completo a nossa attenção. Está executado n'um correctissimo desenho, tocado d'uma distincta tonalidade de côres, n'um flagrante de pose e de semelhança. Ao retrato do Conselheiro João Franco só lhe falta fallar para ser o proprio. «Quanto mais o contemplamos, mais correcto e mais perfeito achamos este trabalho. A figura parece que se destaca da tela, tal é a perspectiva que Julio Costa lhe deu; ás vezes como que a vemos mexer-se. Depois, ha um não sei que de vida, que nos faz imaginar que os olhos se movem, que os labios se vão descerrar para fallar. «E as roupas, que delicada feitura, que _nuances_ de verdade! Na facha que ella ostenta, vermelha, ha reflexos de _moiré_. «O retrato em questão não é simplesmente um retrato; é mais do que isso:--é um quadro».
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E Julio Costa, querendo ser
ResponEliminaagradavel á sua discipula porque vê n'ella uma verdadeira fanatica da
Arte, e muito e muito a estima, pintou então n'um vão escuro da janella,
um _Fim de tarde_. Numa larga planicie arida e muito extensa, lá ao
fundo, o sol cae, e ao esconder-se deixa um tom alaranjado, donde saem
fortes e espalhados raios dum vermelho intenso.
E D. Margarida conta-nos tudo isto timidamente. Porque ella é uma
timida. Tem um grande respeito pela Arte e esse respeito cria-lhe uma
indiscriptivel duvida sobre o seu phoder executante d'obras de largo
folego.