dilluns, 29 de desembre de 2014

Hora Vermelha Por que vieste, pensamento? Já me bastava o Mar violento, Já me bastava o Sol que ardia… P’los meus sentidos escorria não sei lá bem que seiva forte que a carne toda me deixava qual uma flor ou uma lava num riso aberto contra a Morte. Já me bastava tudo isto. Mas tu vieste, pensamento, e vieste duro, turbulento. Vieste com formas e com sangue: erectos seios de mulher, as carnes róseas como frutos. Boca rasgada num pedido a que se quer e se não quer dizer que não. Os braços longos estendidos. A mão em concha sobre o sexo que nem a Vénus de Camões. Aí!, pensamento, deixa-me a calma da Poesia! Aqui na praia só com ela, virgem castíssima, sincera!… Sua mão branca saberia chamar cordeiro ao Mar violento, Pôr meigo, meigo, o Sol que ardia. Mas tu vieste, pensamento. Tua nudez, que me obsidia, logo, subtil, encheu de alento velhos desejos recalcados, beijos mordidos antes de os ver a luz do Dia. Vai-te depressa, pensamento! Deixa-me a calma da Poesia. Fique em minh’alma o só perfume da cerca alegre de um convento. Os meus sentidos embalados numa suave melodia. (Ah!, não nos quero desgrenhados como quem volta de uma orgia). E então meus lábios mais serenos do que se orassem sobre um berço, sorrindo à Vida, sorrindo à Morte. Ah!, não nos quero assim grosseiros, ébrios, torcidos, como depois de um vinho forte. Sebastião da Gama, in 'Cabo da Boa Esperança...Depois da chuva o Sol - a graça. Oh! a terra molhada iluminada! E os regos de água atravessando a praça - luz a fluir, num fluir imperceptível quase. Canta, contente, um pássaro qualquer. Logo a seguir, nos ramos nus, esvoaça. O fundo é branco - cal fresquinha no casario da praça. Guizos, rodas rodando, vozes claras no ar. Tão alegre este Sol! Há Deus. (Tivera-O eu negado antes do Sol, não duvidava agora.) Ó Tarde virgem, Senhora Aparecida! Ó Tarde igual às manhãs do princípio! E tu passaste, flor dos olhos pretos que eu admiro. Grácil, tão grácil!... Pura imagem da Tarde... Flor levada nas águas, mansamente... (Fluía a luz, num fluir imperceptível quase...) Sebastião da Gama, 'Pelo Sonho é que Vamos APAGUEI AS ESTRELAS E DEITEI-ME QUANDO ACORDEI O SOL ERA RENASCIDO (OU NASCIDO) E NÃO MAIS ME OCORREU QUE TINHA MORRIDO COM A NOITE ( OU QUE TINHA SIDO NOITE) NEM QUE EU TINHA DORMIDO ....SERRA-MÃE POEMAS


ficou tudo como estava,

Nem homens cortaram veias,


nem o Sol escureceu,

nem houve Estrelas a mais...
Somente,

esquecida das dores,

a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,

não houve nada de novo

senão eu.

As nuvens não se espantaram,

não enlouqueceu ninguém...

P'ra que o dia fosse enorme,

bastava

toda a ternura que olhava

nos olhos de minha Mãe...




Meu País Desgraçado

Meu país desgraçado!...
E no entanto há Sol a cada canto
e não há Mar tão lindo noutro lado.
Nem há Céu mais alegre do que o nosso,
nem pássaros, nem águas ...

Meu país desgraçado!...
Por que fatal engano?
Que malévolos crimes
teus direitos de berço violaram?

Meu Povo
de cabeça pendida, mãos caídas,
de olhos sem fé
— busca, dentro de ti, fora de ti, aonde
a causa da miséria se te esconde.

E em nome dos direitos
que te deram a terra, o Sol, o Mar,
fere-a sem dó
com o lume do teu antigo olhar.

Alevanta-te, Povo!
Ah!, visses tu, nos olhos das mulheres,
a calada censura
que te reclama filhos mais robustos!

Povo anêmico e triste,
meu Pedro Sem sem forças, sem haveres!
— olha a censura muda das mulheres!
Vai-te de novo ao Mar!
Reganha tuas barcas, tuas forças
e o direito de amar e fecundar
as que só por Amor te não desprezam!



Toada do Ladrão

A mim não me roubaram
Porque eu nada tinha.
Mas roubaram tudo
À minha vizinha.

Vejam os senhores:
Roubaram-lhe a ela
A filha mais grácil,
A filha mais bela.

Nem na sua casa,
Nem na freguesia,
Sequer no concelho,
Melhor não havia.

Prendada, bonita...
E depois... uns modos
De matar a gente,
De prender a todos.

Dizia a vizinha
Que era o seu tesoiro;
Que valia mais
Que a prata e que o oiro.

Que a não trocaria
Por coisa nenhuma;
Que filhas assim
Só havia uma.

Pois hoje um ladrão
Que há muito a mirava
Entrava-lhe em casa
Para sempre a levava.

É a minha vizinha
Dona de solares
E de longas terras
Com rios e pomares.

E de jóias raras
Que ninguém mais tinha,
Ei-la num instante
Pobrinha... pobrinha...

(Tem pomares ainda,
Tem jóias, tem oiro...
Mas de que lhe servem
Sem o seu tesoiro?)

- Vizinha e senhora,
Não me queira mal!
Se há ladrões felizes
Sou o mais feliz
Que há em Portugal.



Somos de Barro

Somos de barro. Iguais aos mais.
Ó alegria de sabe-lo!
(Correi, felizes lágrimas,
por sobre o seu cabelo!)

Depois de mais aquela confissão,
impuros nos achamos;
nos descobrimos
frutos do mesmo chão.

Pecado, Amor? Pecado fôra apenas
não fazer do pecado
a força que nos ligue e nos obrigue
a lutar lado a lado.

O meu orgulho assim é que nos quer.
Há de ser sempre nosso o pão, ser nossa a água.
Mas vencidas os ganham, vencedores,
nossa vergonha e nossa mágoa.

O nosso Amor, que história sem beleza,
se não fôra ascensão e queda e teimosia,
conquista... (E novamente queda e novamente
luta, ascensão... ) Ó meu amor, tão fria,

se nascêramos puros, nossa história!

Chora sobre o meu ombro. Confessamos.
E mais certos de nós, mais um do outro,
mais impuros, mais puros, nós ficamos.










Largo do Espirito Santo, 2, 2º

Nem mais, nem menos: tudo tal e qual
o sonho desmedido que mantinhas.
Só não sonharas estas andorinhas
que temos no beiral.

E moramos num largo... E o nome lindo
que o nosso largo tem!
Com isto não contáramos também.
(Éramos dois sonhando e exigindo).

Da nossa casa o Alentejo é verde.
É atirar os olhos: São searas,
são olivais, são hortas ... E pensaras
que haviam nossos de ter sede!

E o pão da nossa mesa! E o pucarinho
que nos dá de beber!... E os mil desenhos
da nossa loiça: flores, peixes castanhos,
dois pássaros cantando sobre um ninho...

E o nosso quarto? Agora podes dar-me
teu corpo sem receio ou amargura.
Olha como a Senhora da moldura
sorri à nossa alma e à nossa carne.

Em tudo, ó Companheira,
a nossa casa é bem a nossa casa.
Até nas flores. Até no azinho em brasa
que geme na lareira.

Deus quis. E nós ao sonho erguemos muros,
rasguei janelas eu e tu bordaste
as cortinas. Depois, ó flor na haste,
foi colher-te e ficamos ambos puros.

Puros, Amor — e à espera.
E serenos. Também a nossa casa.
(Há de bater-lhe à porta com a asa
um anjo de sangue e carne verdadeira

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