dijous, 1 de gener de 2015

O NOVIÇO DÁ UM JANTAR AOS VETERANOS VIVA O CAMARADA QUE SEJA ADMITIDO ENTRE NÓS E GOZE DAS MESMAS PROEMINÊNCIAS QUE ELE POSSA TER SARNA E MORRER DE FOME, E É-LHE CONSENTIDO PARTILHAR DE FUTURO DAS DIVERSÕES DESTE MUNDO Em 1803 existiu em Coimbra um Novo Rancho de cinquenta a sessenta estudantes libertinos: tinham uma casa,onde à noite se juntavam a comer e beber, a dansar com meretrizes, e donde saíam arma,dos a infestar a cidade. Foram presos os principais (uns dezoito), e o rancho desfez-se. Já depois de implantado o regime liberal, em 1887, apareceu outra associação criminosa — a Republica do Carmo — composta de estudantes que residiam na Sofia, no antigo colégio do Carmo. Até de dia andavam arma- dos de punhais, e cometera'm vários crimes. No começo do ano lectivo de 1 838- 1839 foi assassinado o Dr. Serafim, professor do Colégio das Artes; em 20 e 21 de Maio daquele ano houve facadas, tiros, arrombamentos, com- pleta anarquia em toda a cidade. Um lente de Medicina, o Dr. Cesário Pereira, foi gravemente ferido com dois tiros, na noite de 3o de Junho de 1839; dois lentes de Filosofia, os drs. Pinto de Almeida e Pereira de Sena, foram insul- tados e ameaçados. Em 1841, na noite de 26 de Dezembro, foi morto pela força pública, agredida, um dos da quadrilha. Não faltava já então o estudante crónico. Eis como Ribeiro Sanches o descreve : «Lembro-me que reparei em Coimbra em um estudante,á de idade mais de 6o anos. Como o proprietário da casa onde ele morava, o conhecesse, respondeu-me que este estudante velho, sendo rapaz e estudante matriculado na Universidade, um seu parente lhe fizera um legado de duzentos reis por dia, emquanto andasse na Universidade. Que fez o estudante ? Continuou a matricular-se cada ano, e assim destinou a sua vida naquele estado para receber dois tostões por dia, emquanto vivesse». CORTARAM O cabelo, à força, a um estudante. Este, logo que se viu livre dos agressores, atirou contra o grupo uma pedra, que feriu mortalmente um deles (i). Resta-me ainda falar de verdadeiras quadrilhas de mal- feitores, cujos membros só de estudantes tinham o nome e que por vezes vexavam os próprios camaradas (2). A que maior celebridade adquiriu foi o Rancho da Carqueja que cometeu as maiores tropelias em 1720 e 1721, sendo reitor o Dr. Sanches de Baena. Um dos seus fins era raptar donzelas, levando a audá- cia a ponto de pretenderem raptar uma sobrinha do pró- prio reitor. Uma das suas proezas foi fazer despir um novato e açoital-o com disciplinas, depois de palmatoadas e corte rente do cabelo. Foi preciso vir a Coimbra força armada para o conter. Chegada a força (rg de Fevereiro de 1721), foram presos trinta e tantos estudantes e conduzidos algemados para Lis- boa. D. João V mandou-os degredados para a índia, e o seu chefe, o estudante canonista, Francisco Jorge Aires, da Vila da Feira, acusado dum assassinato, foi degolado (3), sendo a sua cabeça remetida para Coimbra, e aqui exposta na Praça de S. Bartolomeu (desde i de Julho de 1722). Apesar deste rigor, aparece outro rancho (4), poucos anos depois, em 1737, composto de doze estudantes, que armados percorriam as ruas de noite, fazendo esperas a outros estudantes e cometendo as maiores tropelias. Com estes estudantes relativamente socegados se misturavam ociosos estranhos à academia, que se faziam passar por estudantes. Diz Ribeiro Sanches: «Também vi homens de maior idade, sem professarem mais que a vida de feição e galanteio virem de LisboV e das provín- cias passar o inverno a Coimbra, logeados com estudantes, na intenção de se divertirem; nunca lhes faltou companhia de jogar, glosar motes, tocar instrumentos, dançar e con- sumir o tempo na conversação dos equívocos e dos re- pentes». As vezes as músicas vinham para a rua, incomodando os moradores da cidade; pelo alvará de 20 de Julho de iSSg vê-se que «alguns estudantes da Universidade, não esguardando o que cumpre ao serviço de Deus e meu (fala D. João III) e à honestidade de suas pessoas, andam de noite, com armas, fazendo músicas e outras atites não mui hojiestas por essa cidade, do que se segue escândalo aos cidadãos e moradores e pouca honra e autoridade à Universidade» Como hoje ainda sucede, a maioria dos estudantes vivia em casas alugadas, uns na cidade, outros nos arrabaldes. As casas eram, como hoje, alugadas sem mobiliário, tendo o estudante de trazer tudo de casa, às vezes de muito longe. A criadagem era variável. Diz Ribeiro Sanches: «Cada dois ou três estudantes tem uma ama, um e às vezes três criados; se é cavalheiro, tem um cozi- nheiro, um creado e um pagem ou, pelo menos, um negro. O fausto dum fidalgo, ou seja porcionista nos colégios de S. Pedro e de S. Paulo, consiste no maior número de criados e sustentar uma mula ou cavalo». Não indo às aulas, nem trabalhando em casa, em que passaria o tempo o estudante ? Então, como hoje, não havia uniformidade, no que toca às diversões do cábula. Havia, em primeiro lugar, o estudante genuinamente preguiçoso, pondo todo o prazer na vida ociosa, no dulce far niente, ou na pândega pacata. «Conheci muitos, diz Ribeiro Sanches, que se levanta- vam somente da cama para o jantar, estando de boa saúde, outros passando dia e noite a tocar instrumentos músicos, a jogar as cartas e a fazer versos». Qualquer estudante, por mais ignorante que fosse, podia aspirar ao doutoramento. Os doutores eram considerados concorrentes ou oposi- tores às cadeiras. Havendo uma vaga, concorriam a ela os opositores. A prova de concurso reduzia-se, para cada opositor, ao acto de oposição, em que iam argumentar os outros. Mas, como eram muitos, e o júri costumava atender principalmente à antiguidade do grau, acabaram os opositores por combinar entre si os argumentos ; o que reduzia o acto a uma mera formalidade. Com o tempo introduziu-se também o acto de osten- tações, que chegava a durar três dias; e, sendo a princípio facultativo, se veio a tornar obrigatório. Como os estudantes votavam nos concursos, os oposi- tores iam oferecer-se-lhes para falarem de repente sobre qualquer assunto; foi daqui que nasceram as ostentações. Este costume trazia a academia dividida em partidos, alimentados pelos colégios, e era origem de frequentes distúrbios. Sem solicitações de espírito, é fácil de prever qual seria a ocupação do estudante de Coimbra, na época de que estamos tratando....É coisa averiguada pelos médicos que faz mal aos nossos tanto passear depois de comer, vindo esquen- tados do estudo ; e pode ser que daqui nasce haver tantos doentes de fígado, e assim deve haver moderação. Supostas as diligencias que nosso P.e mandou fazer e as consultas que com os médicos em Portugal e Roma por sua mesma ordem se fizeram para obviar lançar de sangue como havia neste colégio. . .Digamos agora duas palavras sobre o ensino no período a que nos estamos reportando. Na Faculdade das Artes, actualmente representada pelas duas de Sciências e Letras, o ensino reduzia-se a Filosofia escolástica, segundo o próprio texto de Aristó- teles; nem Física, nem Química, nem História Natural. Em Medicina, o ensino limitava-se aos escritos de Galeno, Hipócrates, Rasis e Avicena. O Hospital estava miserá- ' velmente instalado* na Praça de S. Bartolomeu, e nele se faziam por ano para o estudo da Anatomia nove dissecções em carneiros. O Latim era a língua das aulas; nela se ditavam as postilas, (mais tarde chamadas sebentas)^ que o aluno tinha de apresentar, rubricadas pelo professor, para prova de frequência {\,). Mas os estudantes iludiam esta exigência: sem comparecerem nas aulas, adquiriam facilmente postIlas, e atestavam a sua assiduidade com o testemunho de dois condiscípulos. Os próprios estudantes teólogos preferiam ouvir nos respectivos colégios as lições dos seus professores a comparecerem na Universidade. Metade dosestudantes não viviam em Coimbra, onde só apareciam por ocasião das matrículas (i). Havia três por ano —uma pelo S. Lucas (i8 de Outubro), abertura da Universidade, outra pelo meio do ano, e a matrícula final a í5 de Maio. Para evitar aquele inconveniente estabeleceu-se o sistema das matrículas incertas (duas e depois uma): os estudantes eram chamados durante três dias, em épocas incertas, perdendo o ano os que não compareciam (2). Mas sempre transpirava com antecipação o primeiro dia de chamada, e os estudan'es, prevenidos por caminheiros pagos por eles, compareciam pela maior parte. O reitor Sanches de Baena, para prevenir este abuso, lembrou-se de afixar os editais que anunciavam as matrículas incertas no primeiro dia de chamada; mas, comparecendo no fim do último dia um numeroso grupo de estudantes, em grande parte do Rancho da Carqueja, e não querendo admiti-lo o reitor, originou-se uma desordem violenta, tendo de fugir o reitor e o secretário que fazia a chamada (3). Não havia exames senão nos últimos anos do curso, como já dissemos. Estes exames versavam sobre pontos, (i) Na maior parte dos colégios, os estudantes só residiam até à Páscoa, por não chegarem as rendas para mais. A Universidade gozava de grandes privilégios, que lhe foram dados por D. Diniz e confirmados pelos reis seus sucessores. Um deles era a isenção do foro comum, con- cedida a professores, estudantes e todas as pessoas da Universidade. A princípio estiveram sujeitos ao foro ecle- siástico; mais tarde, a um foro privativo (foro académico)^ exercido por juízes ou conservadores próprios, tanto para as causas crimes, como para as cíveis (i). Este foro espe- cial só acabou com a implantação do regime liberal. As Faculdades, a princípio, eram quatro: Cânones, Leis, Medicina e Artes. Só com D. João I começou a ensinar-se a Teologia, ensino até então monopolizado pela Universidade de Paris. São deste reinado (143 1), os primeiros Estatutos da Universidade, elaborados por ela própria, os quais vigo- raram até ao começo do século seguinte, em que D. Ma- nuel lhe deu novos Estatutos. No Arquivo da Universi- dade há cópia dos primeiros e o texto original dos segundos, com a assinatura autografa de D. Manuel. A frequência das aulas era livre. Nos primeiros tempos da Universidade não havia exames, de que se fala pela primeira vez nos Estatutos de D. João I; mas estes exames não se faziam nos primeiros anos dò curso. Só muito tarde, com a reforma pombalina, se estabeleceu a prática dos actos por anos. Até D. Manuel, os reitores da Universidade, escolhidos por eleição, eram quási sempre estudantes e, às vezes, lentes. (i) Ainda em tempo de D. Diniz, começaram os conservadores (dois a princípio e depois um) a julgar as causas cíveis. Desde D. Fer- nando julgaram também as causas crimes. D. João I e os reis se- guintes mantiveram este privilégio, que só era cassado em casos ex- cepcionais para reprimir grandes abusos. Vid. Dr. António de Vas- concelos, Origem e evolução do foro académico privativo da Universi-^ dade de Coimbra («Boletim da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra», ano 3.°, n.° 28). 8 O lugar era gratuito, sem mantimento algum, como se dizia naquele tempo (i). Nos Estatutos manuelinos encontram-se proibições pelas quais se pode fazer idea dos costumes dos estu- dantes do século XVI. Mandam que menhum estudante entre nas escolas com armas ofensivas, nem defensivas, e o que o contrário Ji^er, perca as armas metade para o bedel e metade para o guarda das escolas^. E noutro artigo: Mandamos que os escolares não tenham em sua casa mulher suspeita continuadamente, sob pena de fnil rets para a arca do Estudo, e a metade para quem o acusar; não terá cães nem aves de caçar. E andem ho- nestamente vestidos e calçados, a saber: não tragam pe- lotes, nem capuzes, %iem barretes, nem gibões vermelhos, nem amarelos, nem verdegaio, nem cintos lavrados de oiro, sob pena de perderem os ditos vestidos metade para o bedel' e metade para o guarda das escolas>^ Parece serem estes os maiores abusos (2). Já desde D. Diniz que os estudantes viviam, pela maior parte, em bairro separado -do Arco de Almedina para cima — a fim de evitar conflitos com a população burguesa. (i) Os Estatutos manuelinos, elaborados sem intervenção da Uni- versidade, proibiam que os lentes fossem reitores e determinavam que para o cargo fosse sempre eleito fidalgo ou homem constituido em digmdade. Foram publicados no Anuário da Universidade para 1802- 1893. ^ (2) Estas liberdades de traje - reacção contra o hábito talar obrigatório — chegaram até nossos dias. Assim, a portaria de 27 de Setembro de 1843 recomenda ao reitor que reprima os abusos que alguns estudantes cometiam de andarem vestidos com lobas curtas e indecorosas, de trazerem bigodes e outros atavios impróprios da gra- vidade académica, chegando ao excesso de cigarrarem e entrarem cobertos nos Gerais e até nas aulas da Universidade. Concessões se foram fazendo, a pouco e pouco, até se chegar ao uso facultativo Assim, o reitor Vicente Ferrer, em edital de 10 de Outubro de i863 permitiu aos lentes e estudantes o uso de vestido talar com sapatos è meta ou com botins pretos e calça, ficando os sapatos e meia obrigató- rios para os actos. Foram estes conflitos que principalmente impediram a permanência da Universidade em Lisboa. Mas para o seu estabelecimento definitivo em Coimbra, depois duma estada de i6o anos na capital, deve ter concorrido pode- rosamente a necessidade de afastar os Estudos dum meio de bulício, ocupado pelas intrigas da corte, corrompido pelo^ fausto e ostentação, embriagado emfim pelos fumos da índia de que fala Afonso de Albuquerque, e que até nas próprias Escolas Gerais tinham penetrado. Quando a Universidade veio instalar-se definitivamente em Coimbra, as Faculdades dividiram-se, a princípio: parte (Teologia, Artes e mais tarde Medicina), instalou-se nos colégios de S. João e de Santo Agostinho, do mosteiro de Santa Cruz (i), e outra parte nas casas do reitor D. Garcia de Almeida, onde mais tarde esteve o Colégio de Santo António da Estrela. Poaco depois, passaram as Faculdades maiores (Teo- logia, Leis, Cânones e Medicina) para os Paços Reais, cedidos por D. João III, e que mais tarde (i 697)' vendeu à Universidade Filipe I por So.ooo cruzados. Em 1644 vieram todas as Faculdades instalar-se nos Paços Reais; mas, como o edifício fosse insuficiente, saíram de lá as chamadas Escolas Mnenores (Artes e La- tinidade), com as quais D. João III constituiu o COLÉGIO DAS ARTES mas um Bardo, um Bardo dos tempos novos, despertando almas, annunciando verdades. O homem com effeito cantava o Céo, o Infinito, os mundos que rolam carregados de humanidades, a luz suprema habitada pela ideia pura, e ... os transcendentes recantos Aonde o bom Deus se mete, Sem fazer caso dos Santos, A conversar com Garrett!

1913. Começou, na noite de 24 de Maio, durante a 
récita de quintanistas, no Teattro Avenida por um conflito com a polícia: 
dois estudantes, não cumprindo a 
ordem da polícia para se retirarem, foram presos, 
tomando 
os outros o partido deles. 

Depois da meia noite, cem a cento e cinquenta 
estudantes vieram 
à Praça 8 de Maio dar morras à Polícia, 
respondendo com vivas os populares que ali se 
encontravam;o que deslocou o conflito.' 
Durou este até 28 de Maio. 
Intervindo a força armada, houve luta, trocando-se tiros. 
Foi 'preciso fechar a Universidade, 
dando por findas as aulas
OS BURGUESES ALIAM-SE À POLÍCIA 
FARTOS DE FURTOS ARROMBAMENTOS
DOS ESTUDANTES

Para mais facilmente exercerem as suas tropelias, era frequente o uso de máscaras ou rebuços. 

Várias provisões tinham sido enviadas à 
Universidade em 1648, 1656 e 1671 contra as 
turbulências dos estudantes. 
Caldas no esquecimento, veiu a provisão de 4 de 
Abril de 172 1, proibindo armas, 
rebuços com capotes e 
máscaras, etc. 

Estes costumes mantiveram-se até nossos dias, 
sendo a 
arma a tnoca, e a máscara o gorro puxado para a cara, 
com dois buracos para os olhos. 

Às vezes era necessário derogar o privilégio do foro 
privativo. Assim, diz a provisão de 24 de Julho de 1721: 
«sendo-me presente que na ocasião dos touros que houve 
no mosteiro de S Clara, extra-muros da cidade de Coimbra, se mascararam alguns estudantes, 
que juntos foram em um dia insultar o juiz de fora e em outro o corregedor da comarca, que vendo o excesso dos ditos mascarados e intentando 
prendê-los, estes lhe resistiram com armas de 
fogo, e lhe feriram um alcaide, e que, não obstante a resistência, o dito corregedor prendera nove dos mascarados; 
fui servido resolver que o corregedor tirasse 
logo uma 
exacta devassa e que, sem embargo 
dos mascarados serem Estudantes, não remetesse os presos nem as culpas ao conservador seu privativo, derogando por esta vez os privilégios dos ditos estudantes, como protector que sou da 
mesma Universidade. . .». 

Um dos divertimentos persistentes até hoje eram 
as troças ou investidas de novatos. 

Atingiram tal violência que D. João V viu-se 
obrigado a publicar a carta régia de 7 de Janeiro de 1727, mandando riscar dos seus cursos 
o estudante que por palavras 
ou obras ofender outro, com o pretexto de novato, ainda que seja levemente 

Entre os divertimentos da época contavam-se 
os oiteiros 
ou saraus poéticos ; quási todas as noites os havia defronte 
dos próprios Colégios de S. Pedro e S. Paulo. 

Os oiteiros nos conventos de freiras, as touradas 
que ali por vezes se davam, nos terreiros, 
desenvolviam naturalmente o galanteio junto das
 freiras (i). Havia estudantes, e até lentes, com a 
pecha de freiráticos, tendo 
sido publicada contra eles a lei de 3 de Novembro de 167 1 e a provisão de 3 de Março de 1725, em que se manda que o corregedor da comarca de 
Coimbra tire todos os anos uma devassa 
das pessoas que teem relações com freiras. 

Também Ribeiro Sanches nos fala do estudante
 janota 
no seu Método para aprender a estudar a Medicina: 

«Até ao ano de 17 18, 
o vestido dos estudantes da Uni-versidade de
 Coimbra era uma loba de baeta com capa, 
que custava 7.200 rs. até 9.600 rs. 
Neste ano veio de 
Lisboa a moda da abatina, 
e vem a custar este vestido, de 
crepe ou de pano, 26.000 rs. até 30. 000 rs. Deixo aquela destruição de voltas e punhos de cambraia, que não se fabricam em Portugal; deixo o gasto 
que faz o estudante das engomadeiras. 
O que vi mais lamentável eram doze 
ou quinze logeas estrangeiras na rua da Portagem, onde os estudantes compravam meias, fivelas, 
luvas, estojos, tesoiras e tudo que vem de França e de Inglaterra. Ali aprendiam e adquiriam o habito de não poderem vestir-se 
senão do que se fabrica fora do reino». 

Passatempo favorito dos estudantes era a troça, 
sob 
diversas formas. 

 vê-se em que 
consistia a troça dentro das aulas: 

«Alguns estudantes não esguardando o que 
cumpre a 
seu habito e á sua honra desses estudos, por 
algumas leves 
causas que a isso os movem, estando nas escolas
 ouvindo 
os lentes, pateiam com os pés e batem com os 
tinteiros aos 
que vão tarde e a outros». 

Mais tarde Verney, no seu Verdadeiro método de estudar, notava ainda que os estudantes 
embaraçavam a 
entrada de visitantes nas aulas, 
raspando com os pés no chão, costumeira 
que ainda se usava no meu tempo de 
estudante. 

Alguns usos caricatos, em algumas procissões,
 eram 
largamente explorados pela veia trocista 
dos estudantes, 
apesar do fanatismo religioso de aqueles tempos 
Tais eram: danças profanas intercaladas nas procissões, taboleiros de pão (fogaças), à cabeça 
de mulheres aparatosamente vestidas e decotadas, etc. 

A procissão de Corpus CHrisTi, acompanhada de danças, 
jogos e figuras impróprias, 
era com frequência perturbada 
por scenas escandalosas, como sucedeu no ano de 1724 
(mais tarde em' 1842,  mas a procissão que mais 
troça provocava era a chamada procissao dos mis, que saía 
do mosteiro de Santa Cruz, no dia dos 
Santos Mártires de 
Marrocos (16 de Janeiro). 
Dos arredores de Coimbra 
acudiam numerosos penitentes, nús da cinta 
para cima, 
que acompanhavam as relíquias dos Mártires (3) ; os estudantes durante o trajecto dirigiam-lhes
 chufas, e davam- Ihes repelões tremendos. 
Teve por fim de intervir o bispo 
com uma pastoral severa, proibindo que se 
incorporasse 
na procissão quem não estivesse decentemente 
vestido. 

Por ocasião do ponto havia as soiças 
(mais tarde latadas), de tal maneira ruidosas, 
que tiveram de ser proibidas 
por carta régia de 4 de Julho de 1541. 

Também o alvará de i de Julho de 1641 teve de 
proibir as invectivas, cartas ou trovas de mal dIZer, à porta das Escolas, por ocasião dos doutoramentos, vestígios do antigo vexame, que consistia 
em invectivar o 
graduando por defeitos graciosos. 
Segundo os Estatutos 

(3) Mais de duzentos e vinte em 1641.
de D. Manuel, «um homem honrado louvará letras e costumes do graduando e em linguagem por palavras honestas dirá alguns defeitos graciosos para folgar, que não sejam de sentir*. Por vezes as troças davam lugar a desordens, 
como 
sucedeu em 1801 (25 de Março): 
de gracejos dirigidos aos 
milicianos resultou grande balbúrdia, 
felizmente sem consequências de gravidade. 

A monomania dominante era, porem, a da valentiatraduzindo-se em passatempos brutais. Diz, a este respeito, Ribeiro Sanches: 

«Cada um tem sua sociedade particular, 
e daqui vem 
que todos vivem armados com ânimo de ofender e de 
ofender-se, do mesmo modo que se vivessem entre inimigos 
e não na sociedade civil, onde a união e a 
cordealidade 
são o mais potente beneficio a que aspira o Estado bem 
governado». 

Ficavam, portanto, letra morta as proibições dos ~
Estatutos. Já vimos o que dispunham 
a este respeito os Estatutos de D.Manuel. 
Os Estatutos de 1591 dizem textualmente : 

«Nenhum estudante trará armas ofensivas 
e defensivas, 
de qualquer sorte que sejam, ainda que seja f
aca ou canivete, de dia nem de noite, nas escolas, nem fora delas, 
pela cidade e seus arrabaldes, 
e quem o contrário fizer, 
pela primeira vez perderá as armas para o 
meirinho ou 
guarda das escolas, qual primeiro o acusar, e pela segunda 
vez, alem de as perder, estará preso oito dias». 

Os Estatutos velhos (os de 161 2, em vigor até 
Pombal), 
estabelecem para a reincidência, além da prisão 
por oito 
dias, uma multa de 2.000 reis. 

Várias disposições avulsas insistiam na mesma proibi- 
ção; assim D. João III determinava no alvará de 26 de 
Agosto de i538 que os estudantes *
não tragam punhal 
nem daga*. 

Vê-se que era abuso dominante. Noutra passagem da sua obra, diz sobre o mesmo assunto Ribeiro 
Sanches que «os estudantes rondavam armados de noite,como se a Universidade estivesse sitiada pelo inimigo ; muitos Tinham um cão de fila, que era sua companhia de noite». 
- 

 alvará de 18 de .lulho de 1727 determinava que os bedéis apontassem as lições em que os lentes não lessem por falta de estudantes, 
para que na prova do ano se lhes abatesse um dia
 por cada lição, e que, se os lentes lessem com tão poucos estudantes que se pudessem 
facilmente contar, os bedéis os tomassem a rol, 
para que os outros incorressem na perda de um dia por cada uma destas lições.

na rua da Sofia, mais tarde cedidos à Inquisição 
quando o Colégio das Artes passou para o Bairro Alto, 
indo ocupar o edifício onde hoje se encontram 
as enfermarias do Hospital da Universidade. 

O Colégio das Artes teve como primeiro principal o 
Dr. André de Gouveia, grande pedagogo do século xvi, 
duma família célebre de humanistas, mandado vir expressamente de França, onde residia, 
por D. João III, 
com 
notabilíssimos professores. 

Nesta época, os últimos tempos de Lisboa 
e os primeiros de Coimbra correspondem 
ao período áureo da 
Universidade. Ensinavam então nela professores 
de fama 
mundial (i),* e acudia a ouvi-los 
grande número de estudantes, 
tanto nacionais como estrangeiros. 
A par dos cursos regidos pelos professores 
ordinários da Universidade, havia cursos 
extraordinários feitos por professores 
livres, gratuitos ou pagos pelos alunos. 
E em tão grande 
número se apresentavam estes lentes 
extraordinários que, 
não havendo aulas nem horas para todos durante o período 
lectivo, tinha a Universidade de ficar aberta
 também durante as férias. 

Foi, porem, de pouca duração esta prosperidade. O 
Colégio das Artes, que tinha sido inaugurado em 
1548, é 
entregue sete anos mais tarde aos Jesuítas, que
 tinham 
vindo estabelecer-se no reino em 1640, fundando dois anos 
mais tarde em Coimbra o Colégio de Jesus, actualmente 
representado pelo edifício do Museu. Os excelentes pro- 
fessores do Colégio foram despedidos, tendo sido alguns 
perseguidos pela Inquisição, que tinha sido introduzida em 
Portugal, em i536, por bula de Paulo III, e só foi abolida, 
em 1821, pelas primeiras cortes constituintes. O Colégio 
das Artes tornou-se independente da Universidade, admi- 
nistrativa e pedagogicamente; e esta independência foi 



(i) Foi professor neste tempo Pedro Nunes, 
que ensinou Artes 
em Lisboa e Matemática em Coimbra. 

 

Durante o resto do século xvi, todo o século xvii, e os 
três primeiros quartéis do século xviii (até à 
reforma pombalina) se foi acentuando a
 decadência da Universidade. 

Como eia concentrava, porem, todo o nosso 
ensino superior, era muito mais frequentada do 
que hoje, apesar da 
menor população do país. 

Em volta dela, desde o seu estabelecimento 
definitivo 
em Coimbra, se foram fundando numerosos 
colégios destinados aos religiosos das diversas 
ordens, alunos da Universidade. 

Havia também dois colégios seculares, da própria Universidade, os Colégios de S. Pedro 
e de S. Paulo; mas 
estes eram colégios maiores, isto é, destinados a 
graduados 
em Teologia, Leis ou Cânones, candidatos ao 
magistério (2). 

Nos colégios também se admitiam porcionistas ; mas 
em S. Pedro e S. Paulo deviam ser de primeira 
nobreza. 

O único colégio com internato estabelecido para 
estudantes seculares era o Colégio das Artes, onde havia três classes de porcionistas pagando 25, 3o e 35 cruzados por ano 



(i) Aos Estatutos de D. Manuel sucederam-se os 
de D João/ll, 
em 1544, que se perderam. Também não há 
vestígio dos Estatutos 
dados por D. Sebastião em 1555 1565. Só existem os Estatutos de 
1591 e 1597, de Filipe I, e os de 1612 de Filipe II, mais tarde confir- 
mados por D. João IV. Os Estatutos de 1612 — 
Estatutos velhos — 
vigoraram até à reforma pombalina. 

(2) Não deve confundir-se colégio com convento. Os colégios 
chegaram, no século xviii, a ser em número de 22, não falando no das 
Artes. Os conventos eram apenas oito, 
quatro de frades e quatro de 
freiras. Os de frades eram os de S. Francisco, 
S. Domingos, Santa 
Cruz e Santo António dos Olivais ; os de freiras 
eram os de Santa 
Clara, Santa Ana, Santa Tereza e Gelas. Vid. 
O Conimbricense, 1884,

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