dilluns, 4 de maig de 2015

DAS BACANAIS DE TERCEIRA ORDEM EM LISBOA NAS IMUNDAS RUAS DO CAPELÃO, GUIA, DAS MADRES, DA ROSA, DO CASTELO E MESMO NO BAIRRO QUE LEVA O NOME DE PINA MANIQUE ...AS MULHERES PÚBLICAS TÊM UMA TENDÊNCIA PARTICULAR PARA ESTAR À JANELA E É SEGURAMENTE COM O ÚNICO FIM DE SEREM VISTAS PELOS QUE PASSAM E DE OS ATRAIR NÃO SÓ PELOS SINAIS E PELOS GESTOS, MAS POR SUAS ATITUDES E POSIÇÕES INDECENTES E ATÉ IMPÚDICAS ...NÃO É SÓ ESTA TENDÊNCIA QUE AS OBRIGA A ESTAREM À JANELA MUITAS SÃO OBRIGADAS PELAS DONAS DAS CASAS jentlbus nudi talem tuam, et regnis ignominiam tuam. Et proficiam super te abominationes, et contumeliis te nupciam, etponam te in exemplam Nudavi femora tua contra faciem tuam et apparuit ignominia tua,adulteria tua, et hinnitus tuus; sceliis fornicationis lux.DO PUTEDO POLÍTICO EM PORTUGAL E DOS VÁRIOS CHULOS QUE OS CHULARAM Nº1169 As prostitutas estão fora do direito commum em todos os povos.» — O sentimento unanime de todos os povos é de grande pezo no juizo dos direitos legaes que as prostitutas podem conservar. Em todos os povos do mundo, a prostituição foi sempre manchada de infâmia, e se por toda a parte a vemos reconhecida e tolerada, é apenas como uma lepra incuravíl e maldita. Os anathemas fulminados contra ella pelas Sagradas Escripturas, são terrivelmente enérgicas: Et relecabo pudenda lua in facie tua, et ostendam jentlbus nudi talem tuam, et regnis ignominiam tuam. Os romanos exgotavam o vocabulário das injurias e das imprecações para as qualificarem : Quemstuaria', ou quoestuosum, de quaeslus, ganância, commercio. Meretrices, de merere, ganhar. Togatii de toga. A toga era imposta ás mulheres convictas de adultério, afim de se poderem distinguir das matronas honradas, que vestiam uma larga túnica, slola. Moechae, de moecha, adultera. Scortir., de scorlum, couro, pelle surrada. Lupa, de lupa, loba. Prostihuliii, de pro e slabulum, diante da porta. Prosedae, de pro e de seãfre, sentar-se diante, ou no humbral da porta. Cellariíe, de cella, Noctilucce, que fazem da noite dia. Diobolariu', de dois obulos, moeda. Schceniculif, que se deitam sobre a palha. Micarid', de alica, farinha, por se prostituírem aos escravos, á porta dos moinhos e.das padarias. Scortie erraticw, prostitutas errantes, pierreuxes. Havia contra ellas as mais severas leis de excepção, e desterravam nas para bairros especiaes ou para as cisternas e fossos das fortificações. Em Roma, no berço do direito, as prostitutas e as proxenetas eram man- chadas de infâmia, o que equivalia a uma espécie de morte civil, porque era prohibido a um homem livre contrahir matrimonio com uma prostituta. A prostituição recrutava-se entre os escravos, que se vendiam no mer- cado como bestas de carga, e a mulher que se entregava ao trafico do seu cor-po, rebaixava-se ao nivel das prostitutas escravas.' Obrigavam -na a vestir exactamente como estas o trajo viril, a toga, tornada com esta appiicação irrisória e infame. Se a mulher assim tão baixa cabida era patrícia, perseguiam-na como ré de um crime grave, e condenavam-na a desterro. Em todas as nações o desprezo das prostitutas está na razão directa da civilísação. Todas ellas estiveram sempre de accordo para stigmatizarem com o desprezo a incontinência das mulheres. A natureza impoz este modo de sentir a todas as nações. A policia, como lemos dito, tinha a pesada tarefa de investigar dia a dia o nome das pessoas que costumavam visitar as casas de prostituição, e de descrever minuciosamente a natureza dos prazeres que essas pessoas alli iam procurar. EM TODOS OS TEMPOS HOUVE NO INTERIOR DAS CASAS PÚBLICAS DE PROSTITUIÇÃO DESORDENS MAIS OU MENOS NOTÁVEIS, MUITAS DAS QUAIS TRANSCENDIAM AOS VIZINHOS HABITANTES, A QUEM OBRIGAVAM A FAZER MUITAS VEZES FAZER QUEIXAS E RECLAMAÇÕES ÀS AUTORIDADES PARA SEREM POSTAS FORA DAQUELAS RUAS E DAQUELES BAIRROS ESPECIALMENTE NAS CASAS DAS MAIS BAIXAS E INFAMES DAS PROSTITUTAS DA MADRAGOA, COTOVIA, ETC História da prostituição, em todos os povos do mundo desde a mais remota antiguidade até aos nossos dias ... por Pedro Dufour, notavelmente ampliada e enriquecida com valiosos estudos por D. Amancio Peratoner e outros escriptores, e seguida de um importante trabalho sobre a Historia da prostituição em Portugal, desde os tempos mais obscuros da Lusitania até nossos dias by Jacob, P. L., 1806-1884; Peratoner, Amancio; Amorim Pessoa, Alfredo de. História da prostituição em Portugal Christina de Foix, de Sédan, que não tinha outro defeito além do nariz algum tanto comprido, deixou-se roubar pelo conde de Ferrari, que lhe fez crer que estava gravida. O mesmo conde pôl-a em seguida por conta de um negociante da rua de Saint-Denis, onde não estava muito bem installada. O senhor Jasny ofereceu-lhe accomodação mais vantajosa, mas bem depressa se arrependeu por ella o ter enganado com um tal Tournaire, genro do senhor Dupont, conselheiro do Chatelet.» «7 de dezembro : — A Dubois, da Comédie Française, apesar da severi- dade de seu pae, concedeu as primícias do prazer a um moço de café. Verdade seja que este moço de café era o duque de Fronsac, que de avental e guardanapo lhe apresentava todas as manhãs o chocolate. Em seguida, fez-lhe a corte o marquez de Villeroi, mas como marquez, entenda-se.» «iVa mesma data: — Martigny, bailarina, estava por conta do senhor de Courchamp, por vinte luizes ao mez com a condição de que havia também de satisfazer o capricho que tivera pelo marquez de Vierville. Depois dei\ou-os a ambos, quando o senhor de Bernonville lhe ollereceu maiores vantagens. «A menina Rave, bailarina também, apressou-se a consolar o senhor de Courchamp, Não tinha nem uma peça de roupa branca, quando elle encom- mendou para ella a Lempereur um par de brincos. Qaiz que sua mãe con- cluísse a sua educação, mas ella ensinou-lhe apenas a agradar ao publico.» «25 de dezembro: — .A Dorval, convertida em marqueza dAubiard, fez a sua primeira campanha com um soldado que desertou por causa d'ella. Quando se enfastiou d'este rude companheiro, fez com que lhe quebrassem a cabeça. Entregou-se depois a uma companhia inteira d'onde desertou para seguir uma companhia de cómicos ambulantes. De papei em papel, cliegou até Paris, onde o senhor Danisy, não lhe fizera ainda senão bilhetes apaixonados. Um olhar do duque d'Orleans inspirou a um cavalheiro de S. Luiz o desejo de a tomar por esposa. Um dia, o marido morreu, e ella recolheu-se no convento das Franciscanas, onde ensaiou muitos maridos, sem que nenhum cahisse em ca- sar com ella.» «.2S de dezembro: — Genoveva de Rottemond, filha bastarda do dentista Capron, que a havia dotado com 800 libras de renda. Sua mãe, Dumontier, fazia todas as noites a sua partida de jogo com o doutor Saint-Lèger, que mor- ria por entrar em jogo com a filha. Para se entreter, ia á missa. Encontrou alli um dia Larivée da Opera, que lhe pregou o amor do próximo.» «Madame de Montgantier recebeu os diamantes do senhor Senac. Finge não dar pelos olhares de Vestris, que para a obrigar a reparar n'elle, finge prestar muita attenção a Mademoiselle Lafont. Queria também caplivar o senhor de Matowsch, mas o senhor Senac disse-lhe que já era bastante ter sido armado por sua mulher.

Não fui muito bem tractada n'esses versos, mas em todo o caso, eu 
não sou de reservas. Demais a mais, gosto da pilhéria, principalmente quando 
ella se apresenta, como na sua parodia, tão scintillante de graça. Algumas das 
minhas collegas enfadaram-se, e tenho-me divertido immenso a cantar-lhe as 
suas coplas, para as ver rabiar! Oueria pedir-lhe um obsequio, e era escre- 
ver-me algumas das coplas, por que não as sei todas, e desejo fazer enraivar 
as minhas collegas, cantando-lhas de vez em quando. Acceita? É um mo- 
mento. Mesmo alli no meu camarim pôde escrever as que me filtam!. . .» 

O poeta suppoz que ia passar um bom quarto de hora no camarim da 
actriz e seguiu-a de bom grado, sem suspeitar do laço que a pcríida lhe es- 
tava armando. 

Chegou ao camarim, e perdeu algum tanto o sangue-frio, quando viu 
todas as actrizes alli reunidas. Apparenlando, porém, um completa tranquilli- 
dade, pediu uma penna para copiar as coplas. 

— «Temos aqui muitas!» exclamaram as actrizes, tirando de um armá- 
rio uma grande porção de varas de marmelleiro. 

— «Olá! Temos brincadeira, minhas senhoras?» perguntou elle, come- 
çando a sontir-se mal disposto. 

— «Engana-se, senhor poeta, não estamos dispostas a brincar. O caso é 
mais serio do que pensai» 

— «Ora vamos, dè-me a penna para escrever o que me pediu, porque 
tenho pressa.» 

— «iNós é que vamos escrever !» 

— «Aonde ?» 

— «Em pergaminho.» 

— «Não percebo ! . . . » 

— «Vae perceber não tarda nada. Deite os calções a baixo !» 

— «O que! Na sua presença, minhas senhoras?» 

— «Sim, senlwr, não tem duvida!» 

— «Confesso que para muitas das senhoras aqui presentes não oHereceria 
novidade o que pudesse apparecer, se comprisse as suas ordens; em todo o 
caso ...» 



78 HISTORIA 

— «E' possível, disse a que presidia á conspiração, mas hoje e diflerente 
o que lhe ordenamos. . .» 
— «Diflerente?!. . . » 
—«Completamente difTerente!» 
— «Oh, minhas senhoras! Expliqueni-se por quem sãol. . .» 

— «Nada mais fácil. Se algumas das que estão aqui presentes tiveram a 
fraqueza de vèr já o seu poio Norte, hoje tracta-se do polo opposto ! » 

— «Não pos.so adivinhar de que se tracta, minha senhora, apesar da sua 
amável explicação.» 

— «Pois o senhor não vé as pennas?» 

— «O que! Pois essas varas. . .» 

— «São as pennas, e agora é preciso que o senhor nos forneça o papel!» 

— «Nunca!» exclamou o pohre auctor indignado. 

— « Como ! Recusa !?...» 

— «Absolutamente I» 

— «Não impQrfa. Corlar-lhe-hemos os calções com estas tesouras, suc- 
ceda o que succeder ! . . . » 

— «Oh! mas isto é uma brincadeira, não é verdade?» disse o poeta que 
já não tinha vontade de rir. 

— «Engana-se, senhor, aqui ninguém está disposto a brincar!...» disse 
uma das damas oflendidas. 

— «Nesse caso, o que me querem?» 

— «Castigal-o, pelo seu atrevimento e pela sua má lingua! E se se de- 
mora um momento que seja. . .» 

E dez pares de tesouras, apparecendo n'aquelle momento nas mãos das 
bellas, completaram o sentido da phrase. 

— «Ora basta de palavreado, que o tempo- urge!» disse uma bonita ra- 
pariga de olhos negros, que costumava fazer as creadas das peças. 

E alirando-se ao pobre poeta, fel-o cahir sobre o camapé. Em menos de 
um minuto o auctor foi despojado dos calções, que defendiam o cubicado perga- 
minho contra o indomável furor das sitiantes. 

— «Minhas amigas, mãos á obra!» disse a directora. 

— «E cbcguemos-lhe duro!» disse outra. 

— «Sim, sim ! Dcmos-lhe uma boa sova, para que se lembre toda a 
vida!. . .» disseram todas a uma voz. 

E uma terrível fusligação cahiu sobre a parle mais redonda do infeliz 
poeta. 

— «Perdão, perdão, minhas senhoras! Piedade!» exclamava elle com voz 
despedaçadora. 

— «Não, não! respondiam ellas. E justo que cada uma de nós escreva 
lambem uma satyra contra estes poetas de má lingua!» 

— «E com tinta encarnada!» accroscentou outra, emquanto as varadas 
choviam abundantemente sobre o desgraçado. 

Quando se cançaram de bater, as actrizes disseram ao poeta : 

— «l'(jde levantar-se!» 



DA PROSTITUIÇÃO 79 

Elle obedeceu com bastante difficuldade. 

— «Agora vá fazer algumas coplas a respeito d'esta aventura I» 

E expulsaram-no do camarim. 

O pobre poeta encontrou-se no corredor com os calções na mão, mas es- 
perava-o nova vergonha. Uma grande multidão alliciada pelas actrizes esperava 
o desgraçado á porta do theatro, e ao vèl-o apparecer recebeu-o com apupos e 
assobios, acompanhando-o assim até casa. 

Tão envergonhado ficou o pobre poeta dos resultados da sua catastrophe, 
que, não se atrevendo mais a apparecer em publico, partiu trez dias depois 
para as colónias, d'onde não voltou mais. 

A guerra de epigrammas, os combates entre facções musicaes e as doces 
hostilidades do toucador eram os únicos assumptos de que então se occupava 
a corte. 

Entre as aventuras d'esta ultima classe, a intriga de Madame de la Po- 
pelinière com o duque de Richelieu fez grande ruido. 

O veterano dos roíiés, sempre joven, apesar dos seus '62 annos, sempre 
libertino, ao menos na imaginação, foi ura dia dizer áquella formosa e opulenta 
dama que el-rei estava namorado d'ella. 

— «O duque tem a certeza do que atíirma?» perguntou-llie ella cheia de 
rubor e de alegria. 

— «Minha senhora, digo a verdade, respondeu soleranemente o duque. 
Os seus grandes olhos negros, as suas espessas sobrancelhas, os seus lábios 
que elle chama os travesseiros da voluptuosidade, e sobre tudo essas formas 
robustas encantaram sua magestade!. . .» 

— «El-rei tem immensa bondade!. ..» exclamou Madame de la Popeli- 
nière, que era filha de um contractador de gado. 

— «Etfecti vãmente o rei tem muita bondade, e mais ainda: deseja pro- 
var-lh'a ...» 

— «De que maneira, senhor duque?» perguntou a dama, soltando uma 
grosseira gargalhada. 

— «De que maneira?! Como um homem amável costuma proval-a a uma 
mulher encantadora!» 

— «Começo a comprehenderl» 

— «Ora ainda bem!» 

— «Mas, senhor duque, eu tenho os meus princípios, e demais a mais, 
o senhor de la Popelinière diz-me todos os dias que na corte uma mulher bem 
nascida não deve dar nunca motivo para que se falle n'ella!» 

— «Seu marido, minha senhora, permitta-me que lhe diga isto, não en- 
tende absolutamente nada dos usos d'este paiz. . .» 

— «Como!» 

— «Pensa exactamente como pensam os homens vulgares, porque não 
passa de um ente vulgarissimo ! . . . » 

— «Mas, senhor duque !. . . » 

— «Veja as damas da mais alta gerarchia!» 

— «Quer talvez que as imite/» 



W HISTORIA 

— «Certamente. De resto, não se tracta de dar que fallar, tracta-se ape- 
nas de obras, realisadas com todo o mysterio, entende-se ! . . . » 

— «Sentior duque, sabe o que lhe digo?...» 

— «Diga, minha senhora, diga sem receio!. ..» 

— «Eu, se el-rci fosse bastante amável para ...» 

— «Percebo perfeitamente, minha senhora. Como súbdita leal, a senhora 
antecipar-se-hia aos desejos de sua magestade ...» 

— «Decerto, senhor duque.» 

— «Não esperava menos da senhora. Agora devo dizer-lhe tudo.» 

— «Como tudo?!. . . » 

— «El-rei não dá o seu coração, senão depois de certos preliminares, 
percebe?. . . » 

— «Não, de certo !. . .» 

— «El-rei quer primeiro certas provas ...» 

— «Provas ?» 

— «Sim, minha senhora, mas com o maior segredo.» 

— «Mas que fim têem essas provas?» 

— «Vae comprehender, minha senhora. Sua magestade tem encontrado 
por esse mundo muitos olhos negros, muitas sobrancelhas espessas, muitos lá- 
bios vermelhos e muitos seios de admiráveis proporções.» 

— «Ora essa !» 

— «E verdade, minha senhora, pois apesar de tudo isto, não pode ima- 
ginar quantas decepções estas apparencias muitas vezes encobrem I. . .» 

— «Senhor duque, não poderia poupar-me esses pormenores?...» 

— «Não, minha senhora, são indispensáveis, absolutamente indispensá- 
veis ...» 

— «Mas eu ... » 

— «Vou concluir, minha senhora, sua magestade, não desejando tornar 
a ser enganado n'este ponto, nomeou para esse fim um examinador.» 

— «Um examinador !. . .» 

^-«Sim, um examinador, extremamente conhecedor d'esta espécie de 
mercadorias ! . . . » 

— «E quem é?. . . » 

— «Pois não adivinha ?. . . » 

— «O que! Sercá o senhor duque?. . .» 

■^ «Effectivamente, sou eu, minha senhora! El-rei foi sempre tão indul- 
gente para commigo, que esta escolha é uma nova prova do favor real.» 

— «Senhor !» 

— «Não se ofienda, minha senhora! El-rei quiz que o examinador desse 
algumas garantias de bom gosto, quiz que não fosse fácil em deixar-se des- 
lumbrar, e eu sou muito escrupuloso!...» 

— «Ah ! senhor duque, pelo que vejo continua ainda a ser a mesma ca- 
beça doida ! . . . » 

— «Oh minha senhora, procuro apenas conservar a minha reputação ! . . . » 

— «Ah ! libertino!. . .» 



DA PROSTITUIÇÃO 8'l 

— «Vamos, minha senhora, o que responde á minha proposta?. ..» 

— «Que quer que responda, senhor duque, a uma proposta tão inespe- 
rada?» 

— «E' muito simples, minha senhora. Ou quer, ou não quer, e no pri- 
meiro caso desejava saber, quando se verificaria a primeira sessão!. . . 

—«Tanta pressa, duque! Deixe-me pensar, reflectir!...» 

— «Não ponho obstáculos, minha senhora, lembro apenas que o fernpo 
urge, e que ha muitas mulheres na lista. A senhora é actualmente a primeira 
no pensamento de el-rei !. . .» 

— «Oh! senhor duque!...» 

— «Talvez dentro de oito dias mude este vento favorável para outro qua- 
drante ...» 

—«Olá!...» 

— «Parece-me que o mais seguro c aproveitar o ensejo, minha se- 
nhora I. . . » 

— «Olhe, n'esse caso, duque, principiemos já esta noite. . .» 
— «E o melhor. A que horas?. . .» 
— «Da meia noite para a uma.» 

— «Onde ?» 

— «Em minha casa.» 

• — «IWuito bem!» 

— «Olhe, senhor duque, será melhor n'outro sitio, porque poderiam sur- 
prehender-nos ...» 

— «A senhora é a pessoa mais competente para escolher o theatro das 
nossas sessões experimentaes. . . » 

— «O melhor é ao fundo do jardim no pavilhão chinez.» 

— «E póde-se fallar... commodamente n'e.sse pavilhão?...» 

— «E demasiado curioso, senhor examinador!. . ■» 

— «Minha senhora, bem vê que tenho de dar uma informação conscien- 
ciosa de tudo quanto se passar. . . » 

— «Até logo. Não faltei» 

— «Pôde estar descançada, minha senhora, não faltarei I. . .» 

É muito provável que n'essa mesma noite Richelieu fosse mais curioso 
do que Madame de la Popelinière pensava, porque se combinou n'aquella pri- 
meira entrevista que para defender a sua Ihese mais commodamente, a dama 
receberia d'ahi avante o duque na sua alcova. Mas, como o libertino fidalgo 
alli não podesse entrar pelos meios ordinários sem ser visto, alugou n'uma 
casa visinha um quarto, que só estava separado do da dama por um delgado 
tahique. 

Um hábil pedreiro fez n'esse quarto alugado pelo duque uma abertura 
que communicava com a chaminé do quarto da complacente dama, abertura 
perfeitamente disfarçada pela prancha de ferro d'essa chaminé. 

Não sabemos precisamente quanto tempo duraram as provas de Madame 
de la Popelinière, o que é certo é que a dama não se enfadava d'ellas. De ve- 
zes em quando, perguntava ao duque se estava suíBcientemente examinada, e 

UísTOKiA Di Prostituição. Tomo iv - Folha 11. 



82 ■ UISTlilUA 

quando passaria a ser propriedade d'el-rei, sem que estas perguntas impedissem 
a continuação do minucioso exame do duque. 

Riclieiieu assegurava á examinanda que a prancha de ferro da chaminé 
não tardaria a dar passagem a Luiz xv, que viria precipilar-se nos seus bra- 
ços, ardendo em desejos, e que desde esse dia, ella ficaria pertencendo ás sacerdo- 
tisas dos gabinetes secretos. Satisfeita com esta resposta, Madame de la Pope- 
linière continuava a proslituir-se, a titulo de ensaio, e se um dos actores co- 
meçava a cançar-se, não era ella com toda a certeza. 

Diz-.se que não ha heroe para o seu creado de quarto ; c c também uma 
verdade incontestável que não pode haver nos costumes secretos de uma mu- 
lher bonita mysterio algum para a sua creada. 

A de Madame de la Popelinière conheceu bem depressa o segredo da porta 
occulta na chaminé, e as visitas do Adónis. Um dia, descontente com a ama, 
divulgou o segredo. Popelinière, o marido ludibriado, deixara-se havia seis 
niezes apanhar nas redes de uma dansarina da Opera, c procurava um pretexto 
para se livrar de sua mulher. Por isso, ficou encantado ao encontrar um tão 
estrondoso, e traciou logo de espalhar o boato, explicando o mecanismo da 
chaminé, de maneira que não houve em Paris quem não soubesse d'aquella 
conquista do incorregivel Richelieu. 

O acontecimento andava de bocea cm bocca, e assim chegou ao conhe- 
cimento da Pompadour. A marqueza quiz ser a primeira a contal-o a el-rei, 
que precisamente n'esse momento entrava na sua alcova. 

Preparava-se para encetar a sua picaresca narração, quando vê entrar o 
protogonista. 

— «Sire, disse ella ao monarcha, está na presença de vossa magestade o 
homem mais hábil da Europa para occullar intrigas amorosas.» 

— «Porque, marqueza?» 

— «Imagine, sire, o duque para guardar o segredo das damas que de- 
seja dar a conhecer a vossa magestade, chega a passar pelos canos das cha- 
minés.» 

— «Que enigma é esse, marqueza?» 

Madame de Pompadour contou então a el-rei a aventura, e sua mages- 
tade desatou a rir. A mar(|ueza imitou-o, e o duque fez coro com elles. 

— «Demónio, duque! Es extremamente zeloso pelos meus prazeres!» 

— «De certo, sire l« 

— «Mas, dize a verdade. Tinhas realmente tenção de me |)roporcionar os 
favores d'essa dama?» 

— «Te|-o-hia feito, siir., quando vossa magestade manifestasse desejo de 
voltar novamente ao regimen de manjares substanciaes !. . .» 

— «Agradeço-te a intenção, mas fica sabi-ndo, (|U(' por muita confiança 
que tivesse em ti, nunca te leria encarregado de siiiiilhanle coniniissão.» 

— «Sire, (Testa vez, como de laiilas dulras, disse o du(|ue malieiosa- 
• mente, olhando de soshiio para a Pompadour, tive de mim para mim que ha 

ordens que um súbdito fiel nunca deve esperar que lhe dêem!. . . » 

O epigramma era acerado, e Madame do Pompadour deixou de rir. Prc- 



DA PROSTITUIÇÃO 83 

textando ter tlc arranjar alguma cousa no vestido, aproveitou-se do ensejo para 
baixar os oilios. 



Tornamos a occupar-nos de Madame de Boiífllers. 

Desde a morte de seu marido, succedida em 1747 nos muros de Génova, 
esta insaciável bacchante, de quem falíamos tanto n'outro logar, apesar de já 
ter completado 4o annos, continuava a pedir voluptuosidades a todos os ho- 
mens. Quando residia nas suas propriedades, como não tivesse muito por onde 
escolher, chamava para apagar os desejos todo o pessoal do seu serviço, desde 
o mordomo até ao ultimo dos palafreneiros. 

Passando, segundo o seu capricho, do mordomo ao cosinheiro, do cosi- 
nheiro aos moços da estrebaria, dos creados de quarto aos porteiros, esperava 
resignada a estação que lhe permittisse em Paris maior variedade nos seus ca- 
prichos. Apesar disto, esta dama, na sua viuvez, não encontrava toda a verdadeira 
felicidade na satisfacção dos seus sentidos ávidos de prazer. Desejava conservar 
uma espécie de grandeza, apesar de fazer tão mau uso d'ella. 

Um dia dirigiu-se a casa do duque de Luxemburgo, que, como sabemos, 
era seu amante declarado havia muito tempo. 

— «Duque, disse-lhe ella abruptamente é preciso que nos casemos ! . . .» 

— «O que! Não percebo o que quer dizer, minha querida ! . . . » 

— «Quero que nos casemos, repito!» 

— «E que necessidade temos d'isso, vivendo como vivemos?. . . » 

— «Ora essa! Havia de ser divertida a vida que passo, se me conten- 
tasse com as velleidades do seu amor?. . . » 

— Mas a duqueza tem sabido encontrar, quando lhe parece, um bom 
numero de supplementos ! . . . » 

— «Sabe, duque? N'estes últimos tempos tenho pensado muito, e julgo 
chegada a iiora de arranjar uma espécie de afmosphera de consideração e 
seriedade, que até agora me tem faltado. Preciso até de apparenfar uma espé- 
cie de religião ! . . . » 

— «Religião, duqueza?!. . .» 

— «Sim, d'essa religião da moda, que consistf^ cm ler na egreja matriz 
uma cadeira dourada, um precioso genuflexório, almofadas com franjas de ouro, 
ctc, etc.» 

— «tiomprehendo. . .» 

— «Quero mandar a todas as procissões trez ou quatro lacaios, levando 
círios com brazões dourados, mas para fazer isto, é preciso ter também alguma 
cousa que se pareça com uma vida conjugal, e gosto do seu posto de general dos 
exércitos do rei.» 

— «Comprehendo. . . » 

— «Bem. Quando assignaremos o contracto?» 
— «Mas, duqueza ! . . . » 

— «E§ta noite virei com o tabellião; não falte, meu querido duquc-ge- 
neral ! . . . » 



Hí " HISTOBIA 

O iluquo não replicou. Oito dias depois, a viuva do virtuoso BoulUcrs ti- 
nlia o l)ello titulo de duqueza de Lu\embui'go, nome a que o liouiem mais nullo 
da corte devia um dos primeiros postos do exercito francez. Uma bella cousa 
a honra hereditária das familias, não acham?!... 

No dia seguinte ao da boda, a illustre bacchanle voltou ao seu modo de 
vida habitual. 

Uma noite, o senhor de la Vampalière,' velho libertino, que já não podia 
gosar a galanteria senão com os olhos, convidara o marechal e sua esposa para 
uma ceia. Os convivas eram numerosos, e muito bem escolhidos, em homens, 
entende-se, porque o amphitrião não esquecera que a duqueza não gostava da 
sociedade das mulheres. 

A du(|ueza, esquecendo de todo que, para obter a considei'at,'ão que dese- 
java, a primeira condi(.-ão era a prudência e. o sangue-frio, bebeu immoderada- 
mcnle como tinha por uso e costume. Como linha o vinho muito terno c sen- 
timental, não tardou a namorar-se perdidamente do senhor de Frise, .seu vi- 
sinlio. 

Depois da ceia houve quem apresentasse o alvitre de dar uma volta pe- 
los houlevards. Todos applaudiram, e Madame de Luxemburgo agarrou-se logo 
ao braço do seu novo amante, o que lhe proporcionou o ensejo de se enten- 
derem. 

Por essa occasião, os Fantoches, ou Fantoccini italianos acabavam de es- 
tabelecer-se em Paris. Os convivas foram assistir áquelle espectáculo infantil, 
de que todos gostaram muito. A duqueza, porem, tinha muito mais que fazer. 
Apenas se sentaram, começou a acariciar o senhor de Frise de uma maneira 
tão significativa, que bem depressa a attenção dos espectadores teve de se di- 
vidir entre os Fantoches e aquelle amoroso par. D'ahi a pouco, as caricias dos 
dois amantes chegaram a ponto de todos os que estavam no theatro esquece- 
rem os Fantoches, para não olharem senão para elles. 

O duque de Luxemburgo levantou-se e foi prevenir sua mulher de que 
estava sendo o alvo de todos os olhares. 

Este aviso conjugal bastou para fazer cessar as manobras da generala, 
mais activa na sua pantomima galante, do que nunca o havia sido o marido no 
assalto de uma praça forte. 

O senhor de Frise foi para logo esquecido. 

Mais tarde a duqueza deu outro espectáculo n'uma ceia em Saint-Cloud, 
olferecida pelo duque d'Orleans, a propósito do parto da princeza sua mulher. 

A generala esteve toda noite a olhar para um pagem, que era etiecti vã- 
mente muito galante. 

Quando todos se levantaram da me<ca, Madame de Luxemburgo foi pro- 
curar o pagem, encontrou-o, e levou o esquecimento das conveniências ao ponto 
de desapparecer com elle. Mas ninguém se importou com esta desapparição da 
bacchante, por isso que todos sabiam que a duqueza, uma vez exaltava pelo 
vinho, não se detinha em nenhuma empreza sem haver conseguido o seu fim. 

Para terminar dignamente aquella noite, a duqueza de Luxemburgo per- 
maneceu no gabinete chamado dos Goulottes com o duque dOrleans, o oonde 



HA PROSTITUIÇÃf» 85 

de Croix e o barão de Bezenval, aos quaes desafiou a beber licores até de ma- 
drugada. 

As seis da manhã, quando os convivas nocturnos tractaram de retirar-se, 
foi preciso um lacaio para levar nos braços a duqueza para a cama, que se lhe 
havia preparado no palácio. 

Era assim que a duqueza de Luxembargo se tornava digna da conside- 
ração social que tanto desejava ! 



El-rei não sentia somente por Madame de Pompadour esse amor sensual, 
que apoz alguns momentos de prazer, se transforma em frieza e indillerença. 
Amava-a verdadeiramente, e a favorita teve numerosas provas d'este amor 
por occasião de uma enfermidade que a prostrou durante muitos dias no leito. 
Visitava-a oilo ou dez vezes por dia, e podia calcular-se o estado da favorita 
pela tristeza ou alegria do rei. Os médicos Scnac e Quesnay, que tractavam da 
doente, apresentavam diariamente boletins a sua magestade. Pode dizer-se que 
á sollicitude d'el-rei deveu a marqueza o seu rápido restabelecimento. 

No emtanto, a Pompadour ficou depois d'esla doença com um incommodo 
tanto mais desagradável, quanto é certo que n'uma mulher de costumes bastante 
reprehensiveis o publico malicioso está sempre disposto a attribuil-o á incon- 
tinência. 

Na corte é sempre diílicil haver segredos. Não tardou, portanto, a di- 
vulgar-se esta enfermidade da favorita, apesar de todo o cuidado por ella em- 
pregado para a occultar. 

O conde de Maurepas, que não gostava d'ella, distinguiu-se logo entre a 
turba dos que riam á sua custa. .V marqueza não ignorava as chufas e troças 
de que todos os dias a tornava alvo aquelle ministro. Mas o rei precisava do 
conde, e por isso a Pompadour aguardava anciosamente o ensejo de o desa- 
creditar aos olhos do seu amante. 

A desejada occasião chegou em fim. Era cm Marly. Ao sentar-se á meza, 
a Pompadour encontrou debaixo do seu guardanapo um papel em que estavam 
escriptos quatro versos. 

Aqui os damos, como um documento histórico : 

La marquise a bien des appas. 
Ses traits sont vifs, ses graces franches, 
El des fleurs naisscnt sons ces pas ... 
Mais, helas ! ce sont des jleurs blanches! 

«A marqueza tem muitos attractivos, feições vivas, graças naturaes, e 
as flores nascem-lhe debaixo dos pés, mas, ai ! são flores brancas /. . .» 

Como pode calcular-se, o epigramma não estava assignado, mas a favo- 
rita havia muito que andava em procura da occasião de perder o seu inimigo 
Maurepas. Elle fazia versos, portanto aquella quadra devia ser obra sua. 
Leu-a ao rei. 

Mas Luiz XV não se indignou, o monarcha ficara silencioso: 

— «Afinal de contas, elle tem razão !» 

Limitou-se a favorita, cheia de despeito por aquella indiflerença do seu 
amante, a escrever uma carta ameaçadora ao conde, esperando que elle viesse 
contricto c arrependido, ajoelhar-lhe aos pés para lhe pedir perdão. 

Maurepas era, porém, muito orgulhoso para proceder em harmonia com 
os desejos da marqueza. 
Ao contrario do que ela esperava, zombou da sua 
carta, que lhe foi entregue na occasião em que
 ceiava alegremente com os 
seus amigos. 

— «Senhores, disse elle, bebamos á saúde de 
um novo ministro da marinha ! Estou prestes a cahir em desgraça, a Pompadour ameaça-me! Vejam 
em que miserável bordel se transformou o, palácio de Versailles! 
Ate as prostitutas n'elle imperam !» 

1 comentari:

  1. OBRAS
    1962 -"O Desemprego da Poesia" (ensaio);
    1972 - "Análise estrutural de romances brasileiros";
    1975 - "Poesia sobre Poesia";
    1978 - "A grande fala do índio guarani";
    1980 - "Que País é Este?";
    1984 - "O Canibalismo Amoroso", que lhe deu o prêmio Pen-Club;
    1984 - "Política e Paixão";
    1985 - "Como se Faz Literatura";
    1986 - "A Mulher Madura";
    1987 - "O Imaginário a Dois" (com Marina Colassanti);
    1988 - "O homem que conheceu o amor";
    1991 - "Agosto 1991: Estávamos em Moscou" (com Marina Colassanti);
    1993 - "O Lado Esquerdo do Meu Peito";
    1994 - "Fizemos bem em Resistir";
    1994 - "Mistérios Gozosos".2011 - "Sísifo desce a montanha"

    HINO DA CANALHA

    Affonso Romano de Sant’Anna
    A canalha se ajuntou de novo, a canalha!
    Em torno da mesma mesa e toalha
    E acanalhando-se outra vez
    Acanalhou-nos a todos, a canalha!

    A canalha é ávida e inquieta, a canalha!
    tem a audácia do corvo e a avidez da gralha,
    com bico de urubu fuça a mortalha,
    a canalha não larga o osso, a canalha!

    No jogo do faz-desfaz, a canalha
    nos mantém no fio da navalha,
    vive brincando com o fogo
    e sai rindo da fornalha, a canalha!

    Achincalha tudo o que toca, a canalha!
    E ela nuca tarda e nunca falha,
    sabe onde semeia e amealha,
    mistura o trigo com a palha, a canalha!

    Trabalha em silêncio, a canalha!
    E pode ter cara jovem ou grisalha.
    De novo vão fazer o banquete
    e nos jogar a migalha, a canalha!

    A canalha não tem ética, a canalha!
    Mostra os seus brasões e medalhas,
    guarda os cofres na muralha
    e faz da história uma bandalha, a canalha!

    Diante dessa canalha
    não sei se é melhor falar direto
    ou se a metáfora atrapalha.
    Bato no meu poema ou cangalha
    e denuncio à minha gente a gentalha.

    Pudesse fugir, fugia
    para Pasárgada, Maracangalha,
    Diante dessa canalha
    Valha-me Deus!
    e o próprio demônio valha!


    SANT'ANNA, Affonso Romano de . O lado esquerdo do meu peito: livro de
    aprendizagens. Rio de Janeiro: Rocco, 1992

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