Entre Cubango e Cuanza
O paiz é abundante de caça, e encontra-se n'elle grande variedade de antìlopes, sendo os mais vulgares o Strepsiceros kudu, o Cephalophus mergens, o Cervicapra bohor, e o Oreas canna. Nas rochas de
carbonato de cal que formam o systema orogràphico do Dombe Grande, abundam os hyrax, e na planicie, entre as grandes e pomposas plantações de mandioca, vivem muitos hystrix, maiores um pouco do que os da Europa, e que causam ali grande estrago nas terras cultivadas. O valle do Dombe Grande é de certo a melhor porção de terreno da provincia de Angola. As suas condições de salubridade não sam más, e o solo é de grande fertilidade. Um porto de mar, o Cúio, dista apenas alguns kilòmetros do maior centro de producção.
As montanhas que enquadram o valle, sam cheias de minerio, e já tem estado em exploração, sempre em pequena escala, por falta de capitaes. Ha ali enxôfre e cobre.
A população indìgena é de bôa ìndole e trabalhadora, tanto quanto o pode ser um prêto abandonado a si mesmo.
Entre o Dombe e Quilengues o paiz é deserto. Pelo caminho que segui há falta de àgua, e a vegetação, pobre ao principio, toma luxuriante esplendor ao passo que nos approximamos de Quilengues.
Seguindo o curso do rio Coporolo não ha falta de àgua, e ouvi dizer, que se encontra sempre uma vegetação rica. Contudo, o paiz mesmo por ali não é habitado.
Ao sahir do Dombe o terreno eleva-se bruscamente a 550 metros, e um systema de montanhas que corre N.S. forma pequenos valles que se vam elevando gradualmente até atingir 900 metros em Quilengues. No rio Canga começa o terreno granìtico, e com elle uma vegetação mais pomposa. Todos os rios designados no Mappa até Quilengues sam apenas torrentes na estação chuvosa, mas em muitos é possivel encontrar àgua na estia, cavando poços nos seus leitos arenosos. O proprio Coporolo está sujeito a esta condição de pobreza.
Quilengues é um extenso e fertil valle, em condições iguaes ao do Dombe; tendo por em quanto muito menos valor, por falta de communicações com a costa.
A sua população é densa, e nas suas campinas pastam milhares de cabeças de gado vaccum de excellente raça.
Os Quilengues sam fortes e aguerridos, e nos ataques que dirigem contra os Mundombes sam sempre vencedores; o que os não impede de serem vencidos pelos povos do Nano, que descem ali a roubar gados e gente.
Estes povos de Quilengues, como os do Dombe, sam avassalados a El-Rei de Portugal, mas não sam tão submissos como os Mundombes.
Tem de certo um futuro o paiz de Quilengues, quando faceis communicações o ligarem á costa, á Huila e a Caconda, e quando fôr administrado como o deve ser.
De Quilengues a Caconda o caminho é por Caluqueime, paiz muito povoado; mas eu segui outro, por motivos que cito na minha narrativa.
Ao sahir de Quilengues para o S.E. encontra-se a alta serra de Quilengues, que se eleva ràpidamente a 1750 metros, e que eu passei na parte chamada Monte Quissécua.
Ali começa o grande planalto da Àfrica Austral, e d'ali ao Bihé a planicie enorme conserva aquella altitude, tendo apenas ligeiras depressões nos leitos dos rios, e um ou outro pequeno systema de montanhas isoladas.
D'este planalto já correm rios permanentes, sendo o primeiro que encontrei n'estas condições affluente do Cunene.
A vegetação arbòrea no planalto não é já tão forte como em Quilengues, mas a herbàcea é mais rica, se é possivel sel-o.
O terreno continúa granìtico, e começa a apparecer n'elle maior abundancia de termites. As ùnicas povoações que se encontram no caminho que segui sam Ngola e Catonga, de que ja falei detidamente.
Em Caconda o paiz é um pouco mais accidentado, devendo ser não menos rico e productivo do que o de Quilengues.
É cortado de rios permanentes, que o regam em todas as direcções, affluindo ao Catapi, affluente do Cunene.
A febre miasmàtica é endèmica em Caconda, como em Quilengues e como na costa; mas apresenta ali um caracter mais benigno, e raras vezes faz vìctimas.
Eu julgo Quilengues nas mesmas condições de salubridade de Caconda.
As condições climatològicas do paiz de Caconda é que já differem essencialmente das da costa, e mesmo das de Quilengues.
Apenas 13° e 44' distante do Equador, o clima, que deveria ser ardente, é temperado pela altitude enorme a que se encontra; mas está por isso mesmo sujeito ás bruscas mudanças que se dam entre o dia e a noite em todo o planalto. Ha ali uma luta constante entre a altitude e a latitude, sendo que esta impera de dia quando um sol a prumo dardeja raios de fogo, e aquella de noute quando uma altura de 1700 metros nos faz viver n'uma atmosphera tão rarefeita.
Lembra-me aqui que o Anchieta me dizia, que se viveria òptimamente em Caconda, se uma màchina em contacto com um thermòmetro, nos fosse deitando cobertores na cama á medida que o thermòmetro descesse, durante o somno.
Esta grande desigualdade de temperatura entre o dia o a noute dá-se quando o sol tem declinação Norte, porque durante o tempo em que elle anda ao sul do Equador é ella muito menor.
Sempre ouvi dizer, que em Caconda produzem as frutas da Europa, mas infelizmente não o sei de sciencia propria, que nenhumas ali encontrei; todavia, creio que se poderám ali aclimatar. A batata é muito boa e produz muito, não só ali como em todo o planalto; mas é tão difficil o seu transporte para Benguella, que a batata que se consome ali vai de Lisboa.
Ha muito boa hortaliça e legumes da Europa, que se dam bem em todo o planalto.
Perto da fortaleza, a população é rara, mas a uma certa distancia está condensada; sendo governada por chefes independentes.
De Caconda ao Bihé o paiz é muito populoso, e, se menos pastores do que os povos até Caconda, sam um pouco mais agricultores.
Nos paizes do Nano, Huambo, Sambo e Moma, os povos sam mais bruscos, mais aguerridos e independentes.
Os terrenos, como se vê no mappa, sam cortados de rios que dividem as suas àguas para tres grandes arterias, o Cunene, o Cubango e o Cuanza.
Ao N. das terras do Sambo, o planalto forma um enorme descampado, a que chamam no paiz a Enhana de Ambamba, terreno alagadiço onde nascem cinco rios importantes, dois dos quaes vam ao Norte e tres ao Sul.
Dos que vam ao Norte, um é o Québe, que vai entrar no mar por 10° 50' de Latitude S., junto ás Tres Pontas, entre Novo Redondo e Benguella Velha.
Este rio na parte inferior do seu curso toma o nome de Cuvo. O outro é o Cutato das Mongoias, que corre ao N. a afluir ao Cuanza.
Os tres que correm ao S. sam o Cunene, o Cubango e o Cutato dos Ganguelas, que se une ao Cubango.
O maior systema de montanhas que encontrei é uma serra que corre de N.E. a S.O. ao N. do paiz do Huambo, em cujas vertentes nascem o Caláe e o Cuçúce, que se unem para affluir ao Cunene.
Uma grosseira observação do aneroide indicou-me o seu cume a mais de 2500 metros acima do nivel do mar.
Fazendo excepção á minha regra de não baptizar em Àfrica rios ou montes, dei a esta serra o nome de Andrade Corvo, por ser designada no paiz apenas por serra do Huambo.
Não encontrei entre os indìgenas vestigios de ter o paiz outro minerio àlém do ferro, o que não quer dizer que o não haja.
O terreno é ainda granìtico, e o solo pode dizer-se que em muitos pontos é de formação animal, pois que é construido pelas termites.
Àlém da disposição especial que encontrei no terreno termìtico das margens do Cutato dos Ganguellas, encontram-se 4 differentes construcções termìticas, que suponho pertencerem a 4 differentes especies.





