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dissabte, 30 de novembre de 2013

SESSÃO MEDIÚNICA NA AULA MAGNA SOARES PREVÊ GOVERNO CORRIDO A PAULADAS QUE NEM CONSEGUE FUGIR PELO PRÓPRIO PÉ E TEM DE FUGIR EM CLASSE ECONÓMICA PARA ANGOLA ACHO QUE JÁ VI ESTE FILME...

Soares dizem que mostrou a possibilidade de produzir dores n'um 
individuo hypnotisado, por picadas na sua photographia, ou n'uma estatueta que o represente.
Em Lisboa um grupo de homens de sciencia fizeram varias investigações sobre os phenomenos medianimicos do espiritismo,
que se manifesta nas previsões e pré visões de Mário Soares, cavalheiro independente pela sua posição e fortuna.
A média foi uma da maçonaria da aula magna, casada, de profissão engommadeira, que se prestou com difficuldade, e que sempre se recusara a apresentar-se em sessões pubicas.
Parte dos investigadores desconfiavam que os phenomenos eram produzidos artificialmente, por não terem explicação possível, comtudo alguns factos abalaram as suas consciências. Fizeram 17 sessões em aulas magnas, Via expresso , que duraram 3 horas, das 9 ás 12 da noite, e os resultados, apesar de se manifestarem alguns maravilhosos, nem sempre corresponderam ao que se esperava, principalmente quando se exigiam modificações do regime para variar as experiências, que, ou não foram acceitas pela média ou media ou mesmo pela RTP ou a TVI, ou sendo-o pouco ou nada provaram, fazendo diminuir consideravelmente o interesse dos prodigiosos phenomenos, e augmentar o numero dos incrédulos.
N'este mundo, chamado pelos choramigas valle de lagrimas, a humanidade anda exposta a immensos perigos de bruxedos; mas, conhecidos elles, facilmente se evitam ou se remedeiam. E preciso saber o que a lithurgia ensina para fustigar o diabo e os seus emis- sários, e por isso tornamos a recommendar o citado livrinho do padre Brognolo, traduzido pelo Fr. José de Jesus Maria. A crença popular confia muito nas virtudes dos bentinhos, re- licários, cruzes, agnus dei o. outros preservativos aconselhados pela egreja, e que tanto arreliam o espirito das trevas. O charlatanismo tem especulado e especula com os innocen- tes, pendurando-lhes ao pescoço vários amuletos (amuletum), pequenos objectos a que a superstição attribue, desde as epochas mais remotas, o condão de livrarem de enfermidades, malefícios satâ- nicos e de outros perigos, como são a pedra de bezoar, um alho encapsulado em panno, o crescente, o signo de Salomão, a figa, o dente de porco, a cauda do lobo, etc. Nos amuletos dá- se o pactum tmplicitum, havendo-os para certas especialidades. Assim, o dente canino do lobo ou do cão, encastoado ou furado e preso ao pescoço, é preservativo da dor de dentes; a mão esquerda da toupeira, e as pequeninas moedas de — 27 — prata livram da influencia das luas e do quebranto. O aipo, a noz de três quinas, a unha do leão, a pedra de ara e outros muitos ob- jectos são egualmente considerados amuletos. Ás pedras preciosas também se tem attribuido virtudes, tanto curativas, como preservativas, sobresahindo a esmeralda que, pen- durada ao pescoço, prolongava a vida e isentava de sustos. Posta sobre a coxa de uma parturiente facilitava a sabida do feto, con- servava a castidade, denunciava o adultério, tornava eloquentes os oradores, destruía os effeitos das mordeduras venenosas, etc. A egreja debalde tem condemnado, até com a excomunhão, estas embustices, mas com pouco resultado: o povo persiste e como atte- nuante mistura os amuletos com os symbolos do christianismo. Não tem sido só a egreja a combater taes superstições, quasi toda a nossa legislação civil condemna as feiticeiras e benzedeiras, impondo penas rigorosas aos que as praticarem. As ordenações de D. Manuel accrescentam ainda mais as penas, e citam vários costumes muito destoantes da actual civilisação, como já dissemos. * No grupo charlatanico avultam também os Aljabristas ou Al- jabaristas, do árabe aljabbar, assim chamado ao que concerta os ossos deslocados e sabe encanar os quebrados; nas nossas aldeias são mais conhecidos por endireita, e quasi sempre os mesmos se encarregam de levantar a espinhella. K^ benzedeiras sao as que ap- plicam remédios com palavras sacramentaes, invocando santos com orações, como a de Santa Mafalda e outras lendas religiosas. As que transcrevemos em seguida vão no verso, se verso se lhe pode chamar, conservado na tradição popular, preferível a todo e qual- quer corretivo métrico que hoje se lhe fizesse. Para livrar as creanças de quebranto em algumas terras ainda se usa passal-as três vezes por uma meada de linho, ou melhor — tomar uns pedaços de chita e de panno de lã, um chinello velho, quatro cominhos, dois queixos de gato bravo, uma crista de gallo, ramos de rosmaninho, de aroeira e de alecrim, e deitando tudo no brazeiro, expor ao fumo a creança, que fica logo livre de malefício, dizendo a seguinte oração: N. . . (nome da victlma) três t'o deram Cinco t'o tirarão, São as cinco pessoas Do Senhor S. João. í Pag. 5, nota. •—28 — Ha também moléstias em que o povo prefere a cura milagrosa, como no cobro contra o qual applicam o alho pisado com pólvora, diluido em vinagre de sete ladrões, e com este ingrediente besun- tam três vezes em cruz a erupção, dizendo: Eu te corto côbro Cabeça, rabo e corpo todo. Aspergindo com um ramo de alecrim, ensopado no mesmo li- quido, accrescentam : Quando S. Bento era estudante Nenhum bico ia por deante, E na mesma escola andava S. Braz Aqui te seques, aqui te mirrarás. Isto deve ser repetido nove dias seguidos para obter cura ra- dical. Para apressar o parto, diz a megera virtuosa: Mordei n'este maçapão Esforçae, rosa florida, Eu venida e vós parida: Kyrieleison, Christeleyson. Dizei três vezes passinho : O verbo caso fato hé Dou-vos a Sam Sardoninho. ^ Contra a erysipela a panacêa consiste em nove pedras de sal, nove rebentões de sabugueiro, nove gottas de azeite virgem e nove de agua da fonte, e com esta mistura unta-se o local inflammado durante nove dias, dizendo-se todas as vezes: Pedro Paulo foi a Roma Jesus Ghristo encontrou E elle lhe perguntou : Pedro Paulo que vae por lá .? — Muita maligna erysipela. Pedro Paulo torna lá, Talha-a com ervinhas do monte Aguas da fonte Azeite bento Que alumie o Sacramento. 1 Gil Vicente na comedia de Riibena. — 29 — Em outras terras as benzedeiras servem-se de um pedaço de corda de esparto, molhada em azeite virgem, e fazendo com ella na casa do doente varias cruzes, recitam em voz alta: D 'onde vindes, S. Julião? Venho de Roma Que vae por lá? Muita morte Em que? Heresypela, heresypelão Escaparão? Sim, benzido Com corda d'esparto, Azeite virgem. Palavras de Deus E da Virgem Maria. Também se usa fazer cruzes com um jramo de sabugueiro por três dias successivos, resando: Sempre verde bem aventurado Na sepultura de Deus creado, Fostes nascido sem ser semeado Pelo poder de Deus e da Virgem Maria, Creou esta rosa este chão Resseca esta irzipela irzepelão, Em louvor de S. Thiago e S. Silvestre, Tudo quanto eu faço preste : Em louvor de Nosso Senhor Que elle seja o seu divino mestre. Amen. Para desfazer as névoas dos olhos tomam três folhas de oli- veira, que collocam em cruz entre os dedos polegar e index da mão esquerda, e com a direita vão fazendo cruzes na cara do en- fermo, dizendo: Senhora Santa Luzia,* Tinha três filhas; Uma amassava, Outra tendia, Outra no fogo ardia. Se és carnicão, Valha-te S. João. Se es cabrita, Valha-te Santa Rita Se és névoa Valha-te o Senhor da Serra. . — 3u — Em algumas das nossas aldeias, quando pretendem combater tristuras, com emagrecimento e repugnância ao trabalho, usam dei- tar n'uma telha com brasas alguns ramos de alecrim e de loiro, uma mão cheia de sal, um fio de azeite virgem, tudo disposto em cruz, defumando a casa três noites successivas, e deitando depois as cinzas pela agua abaixo. Em outras a pratica diífere no com- bater a mesma enfermidade. Metem dentro de um saquinho verde uma cabeça de vibora, sete fios de retroz com três nós em cada ponta, uma pitadinha de sal virgem, tudo defumado com azeite bento, n'um bilhete escripto com sangue de ratazana, o seguinte: O azeite de Deus é bento que alumeia o Santíssimo Sacramento, Vá o mal d'esta casa para fora e venha o bem para dentro. Contra a vertoeja tem sido remédio especifico ir a uma pos- silga de porcos e esfregar o corpo com a palha que lhes serve de cama, repetindo três vezes: Assim como porcos e porcas dormem aqui Assim tu maldita vertueja saias d'aqui. Outros dizem: Sapo sapão, Bicho bichão, Rato ratão, Lagarto lagartâo Saramella saramellão, Aranha aranhão E todos os bichos que taes Seccos mirrados sejaes. Para afugentar o diabo temos a oração de S. Custodio, que dizem de effeito infalível e que termina assim: Sete raios leva o sol. Sete raios leva a lua. Arrebenta para ahi diabo, Que esta alma não é tua. Para combater as ses5es consideram infalível a seguinte ora- ção resada pelo doente: — 31 — vSenhora Santa Mafalda, Esquecida do mundo, Alembrada de Deus, Tirae-me estas maleitas Pelo amor de Deus: Que vos hei de dar Uma bola e uma cebola. Quando teem de fazer estancar sangue as benzedeiras põem a mão na ferida, ou em qualquer parte do corpo, não havendo feri- mento, e como hemostatico entoam a seguinte cantilena em latim: Sanguis mane in te; Sicut Christus fecit in se : Sanguis mane ín tua vena: Sícut Christus in sua pena: Sanguis mane íixus Sicut Christus fuit crucifixus. A pharmacopéa dos bruxedos e das benzeduras é vastissima : além dos especificos que deixamos mencionados, figuram também o incenso macho (?), a baba do cão raivoso, as entranhas do lince, o açafrão, a terra sigillada, o espirito de ferrugem (?), a arruda «ilvestre, a triaga, as cabeças de cobra, as cinzas do cágado, da toupeira, das minhocas, os olhos dos caranguejos e do sapo, o es- terco dos pombos, a rasura das unhas da grã-besta, etc. Algumas d'essas megeras, quando consultadas pelos sectários de S. Gypriano, vão bradar ás portas do cemitério pelas nove al- mas, sendo três de enforcados, três de mortos a ferro-frio e três de afogados. Para completarem o conjuro fazem depois um ferve- doiro em vinho com alecrim, sal das três Marias, incenso do cirio da Paschoa, palma de domingo de Ramos, vela das Candeias, etc. Algumas testas coroadas gosaram por muito tempo privilé- gios sobrenaturaes. Assim os reis de França curavam as alporcas só com o contacto das mãos; os de Inglaterra faziam desappare- cer a gotta, e benziam uns anneis que livravam da mesma enfer- midade, e os de Castella possuíam o condão de expulsar com a vista o diabo, quando se encaixava em qualquer corpo christao. Escriptores antigos dizem — que o rei da Lidia possuia um annel com a virtude de o tornar invisível quando lhe convinha, attri- buindo o dom de tão prodigioso talisman á pedra engastada e a artes do demónio!! .—32 — Os gregos transmittiram aos romanos, e estes o deixaram es- cripto, que, não sendo solemnemen te incinerados os corpos, as al- mas respectivas andavam errantes sem descanço, até aquelles res- tos mortaes serem queimados e recolhidas as cinzas. Homero fez apparecer Patrocho, morto por Heitor, ao seu amigo Achilles, pedindo-lhe sepultura. Os reis idolatras de Israel e de Judá entregaram-se á nicro- mancia, arte de evocar os mortos, adivinhando pelas sombras dos cadáveres, que appareciam de ordinário em duendes ou pygmeus ou em outras íiguras phantasticas e ridículas. Saul também recorreu á nicromancia, quando quiz consultar a sombra de Samuel; mas este prohibiu-a aos judeus. Em Sevilha e Salamanca chegou a haver escolas vulgares de nicromancia, leccionada em profundas cavernas, que foram man- dadas entulhar por Isabel a Catholica. Até ao século xiv era costume pintar nas paredes das egrejas e claustros imagens da morte, representadas por personagens de diversas condições, geralmente em attitudes dançantes, pelo que lhe chamavam dança macabra. Esta pratica foi attribuida por uns á devastação occasionada pela peste, e por outros á simples in- tensão de aterrar os penitentes. Fabrício, porém, diz que a palavra macabra vem do poeta Macaber, que foi o primeiro a descrever nos seus' versos estas pin- turas. A cabala comprehende os mysterios occultos deduzidos de nomes, lettras, números e figuras dos livros divinos para pronos- ticar o futuro: é uma espécie de bruxedo sacro. Os rabinos dizem: Est enim cabala, divinae revelationis ad salutiferam Dei et forma- rum separatarmn contemplationem traditae symbolica receptío, quam qiii coelesti effertur seqiiuntur rectro nomine cabalici dicuntur. ^ 1 Francisco Manuel de Mello escreveu : Tratado da sciencia cabala ou no- ticia da arte cabalística, publicado por Mathias Pereira da Silva em 1724, 4.*» de XII-212 pag. — 33 — O Apocalfpse também é uma espécie de livro magico, o ul- timo dos sagrados do Novo Testamento, onde se conteem as mys- teriosas revelações que teve S. João Evangelista em Pathmos. Cheio de figuras, symbolos e palavras, em que os sábios tem con- sumido muitos annos para interpretarem os pensamentos do au- ctor. Assim como as seitas mais extravagantes teem tido sectários, as aberrações por mais inverosimeis não deixam de ter crentes. Ainda ha pessoas que acreditam em almas do outro mundo, oxn pe- itadas, pertencentes a individuos criminosos não perdoados, ou que fizeram promessas e não as cumpriram. Aquelles cérebros epyle- ticos imiiginam ver essas almas vagueando de noite em forma de phantasmas brancos pelas capellas e cemitérios, cercadas por uma aureola luminosa... e outras vezes arrastando cadeias de ferro, cumprindo assim o seu fadário, até receberem o perdão ou lhe pa- garem as promessas. São immensos os prejuizos que dominam os espiritos fracos, como: considerar as terças e sextas feiras dias aziagos para qual- quer emprehendimento; receiar o dia de S. Bartholomeu, no qual dizem andar o diabo á solta; não se sentar á mesa para jantar sendo treze o numero de commensaes; nascerem de um casal sete filhas, pois a ultima será pieira, e só poderá escapar a este fadá- rio se for afilhada de alguma das irmãs. Para evitar que as bruxas façam mal ás creanças recemnas- cidas crê-se útil conservar no quarto uma tripeça de pernas para o ar, e uma luz até se baptisarem. No Algarve chamam ás creanças, emquanto não entram no grémio da egreja Ignacio ou Ignacia, conforme o sexo, para as livrarem de feiticeirias. Dizem também que uma tesoira aberta possue a virtude de afugentar as bruxas; e como estas teem grande antipathia ao trovisco e ao fumo das plantas aromáticas, perfumam com ellas as casas á noite. Entre os antigos era Faventina a divindade que tinha o poder de repelir as tentativas diabólicas. Estas e outras crenças mais ou menos extravagantes, que o povo conservava e conserva em grande parte muito inveteradas, mas que hoje repugnam á civilisação, apesar de certa belleza poé- tico romântico, são communs a todos os paizes. Ao charlatanismo chegaram mesmo a dar-lhe o caracter offi- cial: assim o alvará de i3 de outubro de 1654 mandou augmentar o vencimento a um soldado virtuoso, que curava com palavras, 3 — 34 — impondo-lhe a obrigação de prestar egual serviço aos seus cama- radas. * Nos seguintes factos temos exemplos bem característicos do modo como se conservam arreigados no povo esses prejuizos. Em i885 tinha moradia na herdade Devesa grande, a uns dez kilometros de Vendas Novas, ^ uma familia, de que fazia parte um rapaz de g annos chamado Luiz, conhecido pelo Menino virtuoso, que desde a edade de 3 annos, possuia o dom de indicar certas ervas do campo, rosmaninho, pampilho e margaça (como é conhe- cida vulgarmente) que curavam todas as enfermidades. O rapaz era rude: sentado n'um carro alemtejano ouvia distraidamente milha- res de pessoas que lhe contavam os queixumes, receitava as er- vasinhas e recebia qualquer espórtula, segundo os teres e gene- rosidade do consultante. A romaria foi enorme e de todas as classes sociaes, até que a auctoridade, ainda que tarde e a más horas, man- dou acabar com tão indecente especulação! Em 1889 deu-se em Monte Agudo, próximo da villa de Mer- tola, o seguinte facto: na charneca de dias a dias inflamavam-se os pastos e os palheiros, causando grandes prejuizos aos lavrado- res, que atterrados foram consultar um malandro inculcado como virtuoso, o qual depois de passeiar o terreno com visos de obser- vador privilegiado deu esta explicação: — «é alma penada que anda por aqui errante e perseguida pelo diabo, e como este a não tem podido agarrar para a levar para o inferno, lança o fogo a ver se assim a apanha.» Ao retirar-se tropeçou n'um calhau e gritou: «cá me deu o diabo um encontrão!» O brejeiro, apesar de bem pago, ao passar por um hortejo colheu os dois melhores pepinos e met- tendo-os nas algibeiras, disse: Antes que o diabo os leve levo-os eu! Os habitantes dos montes próximos ficaram ainda mais assus- tados: alguns até abandonaram as suas^casas, recoihendo-se á al- deia, e pediram ao prior que fosse fazer esconjuros ao demónio e benzer a terra. O padre teve o bom senso de se esquivar a esta farçada, e requisitou da auctoridade administra,tiva a repressão do brinquedo, pois os incendiários eram conhecidos. ^ Por 1890 no concelho de Armamar um curandeiro, tido por 1 J. Pedro Ribeiro, índice chron. e crit., part. vi, pag. 199. ^ A herdade pertencia ao sr. Durão de Sá, de Montemór-o-Novo, e o Me- nino virtuoso era filho do trabalhador José Maria e de sua mulher Joanna. 3 A narrativa foi-nos feita por individuo que presenceou os factos. — 35 — muito virtuoso, apanhou seis libras a uma pobre mulher, scismatica de diabriiras, a titulo de comprar os ingredientes para a curar; Passados dias entrou em casa da enferma, que se chamava Geno- veva, com um cão preto, um gato, um gallo, uma fuinha brava e uma cinta grande. Fechou-se com a misera n'um quarto e começou a operação por quebrar ás martelladas os dentes ao cão, ao gato e á fuinha, arrancando-lhe também as unhas, e cortando o bico ao gallo. Os animaes ficaram agonisantes depois do martyrio, e assim foram collocados em cruz sobre o ventre da paciente, bem segu- ros pela cinta. O patife virtuoso recommendou-lhe que conservasse a mesma posição por vinte e quatro horas, afiançando que cada animal que morresse era um demónio que lhe sahia do corpo, e com a morte do ultimo fugiria o espirito do padre que a perse-? guia. A estúpida Genoveva aguentou, deitada de costas os repu- gnantes trambolhos: os bichos foram morrendo successivamente, e a mulher considerou-se curada da doença imaginaria, abençoando a despesa feita com o curandeiro que, com taes artimanhas, vivia á custa dos pobres de espirito. ■ Terminaremos com o acontecido em junho de 1892 em Águeda. No Beco morava uma bruxa, cuja fama se estendia pelas terras visinhas, e por isso iam muitas pessoas consultal-a. Do concelho da Anadia foram por essa epocha pae e mãe procural-a para dar re- médio a um filho muito enfermo. Depois de uma serie de tregeitos e caretas a megera com voz cavernosa disse-lhe — que o filho tinha sido tocado, e que só se curaria se o levassem a uma terra que ti- vesse três marcos, e sentando-o em um d^elles, dissessem á meia noite: — Marcos que demarcaes; santos e santas demarcae este in^ nocente do poder de Deus e da Virgem Maria. Em algumas viellas immundas das cidades e villas de Portu- gal, e mesmo pelas freguezias ruraes, ainda se encontram algumas d'essas mulheres a quem chamam indistinctamente bruxas, feitir ceiras ou mulheres de virtude. São, quasi todas, pobres velhas des» dentadas, de pelle encarquilhada, que deitam cartas, fazem bailar o peneiro e, dizendo-se commensaes do diabo, especulam' com ^03 3# .—36 — espíritos fracos, ganhando os parcos meios para alimentar o ossudo corpo. Conhecer praticamente as artimanhas das bruxas foi um ideal da nossa adolescência, e essa curiosidade era augmentada pelas numerosas historietas phantasticas d'esta espécie, que se contavam na villa alemtejana, onde então residiamos. Convidados por um amigo para irmos disfructar a sybilla, principal protogonista dos taes contos, que fazia prodígios de adivinhações, acceitámos sem vacilar o convite. A bruxa que causava assombro entre os povos rudes das cir- eumvisinhança, e a quem recorriam com certo terror, consultan- do-a nos lances diííiceis da sua vida, morava á distancia de um kilometro da villa: de dia vagueava pelo campo e só á noite era certa no covil. Aos vinte e cinco annos a imaginação tende para o maravi- lhoso e procura de preferencia as commoções fortes e agradáveis. Sem delongas deliberámos fazer a visita n'esse mesmo dia, e na tarde de lo de dezembro de i85i, próximo das cinco horas, se- guimos ambos por um atalho, armados de lanterna e bordão, em direitura á margem da ribeira, onde ficava o casebre da tia Engra- cia, que assim se chamava a feiticeira. A noite estava invernosa, e o negrume era tão intenso que a frouxa luz da lanterna a custo o penetrava, mostrando apenas o trilho por onde caminhávamos. A ventania sacudia o arvoredo da cumiada, acompanhando o seu zumbido sinistro o guincho das aves nocturnas, que esvoaçavam pelas esboracadas paredes do velho castello mourisco altaneiro á villa. A sombra das ruinas acastel- ladas fazia lembrar o celebre palácio Aladino d'onde surdiam os génios árabes. Este entroito com visos tétricos implicava com o systema ner- voso, produzindo algumas vibrações inexplicáveis mas, até certo ponto, agradáveis e harmónicas com a phantastica empresa que Íamos tentar. O companheiro sem mostras de poltranisse nem de fanfarrão caminhava silencioso com viso de impressionado. Finalmente depois de i5 minutos de mau caminho enxergámos a custo a margem da ribeira, orlada irregularmente de algumas en- fezadas tamargueiras. Esta verdura, e a grimpa de três ou quatro cyprestes do próximo cemitério, era única n^aquelle pedaço de char- neca. A casa da megera ficava isolada; as paredes eram de taipa; a portada muito baixa com postigo desengonçado; ao lado ficava — 37 — um pequeno forno; e sobre o beiral do telhado avultavam duas immensas abóboras meninas. A ventania continuava a soprar rijo, ameaçando chuva, e dava óptimo pretexto de pedir abrigo. Ao bater da aldraba, sem mais detença, ouviu-se a voz fanhosa da tia Engracia mandando entrar, e ao transpor o limiar observámos n'um relance o recinto interior do casebre, alumiado pela clássica candeia de ferro, onde em grossa torcida se queimava azeite impuro, produzindo luz baça com fu- marada rançosa. Em frente da porta duas velhas esteiras, suspen- sas em cannas, formavam divisória com pretenções a alcova, e so- bre uma grande arca estava a enxerga immunda e esfarrapada, coberta de andrajos. Na face opposta era a lareira, onde a bruxa acocorada mechia em tisnada caçarola um cosinhado de cheiro nau- seabundo, tendo á dextra um gatarrão preto agachado, á laia de vigilante, que nos fitou com as phosphoricas pupillas atravez do fumo suífocador das estevas queimadas no brazido, e que por falta de chaminé se espalhava pelo casebre. A velha, depois de entrarmos, ergueu-se um pouco, mirando- nos demoradamente e fazendo saudação mesureira indicou um tosco banco para nos sentarmos. Acceita a offerta ficámos voltados para a luz da candeia e da lareira, d'onde a custo se observava a bruxa. Era uma velha que devia orçar por setenta annos, de es- pinhaço curvo, tez encarquilhada encimada por uma trumpha de cabellos de um branco sujo, o nariz adunco e o queixo revirado para cima. Tinha os olhos pequeninos e vivos um pouco vesgos, as conjunctivas com aspecto de carmesim aveludado, e sobre a testa grandes óculos de vidros verdes com aros de latão que se hiam prender sobre a nuca por um atilho. Terminadas as phrases banaes dos cumprimentos, dissemos sem rodeios — que iamos consultal-a sobre a maneira de reconhecer quando o diabo ou seus agentes influíam na traição das mulheres, e quaes os meios a empregar para a evitar. A sibylla poz os olhos em alvo, deitou em seguida as canga- lhas para o nariz e contrahindo a face em astuta careta com visos irónicos, respondeu: «Os senhores veem-se divertir. Conheço logo os que desejam consultas e os que intencionalmente vêem disfructar-me. Coitado de quem precisa!. . . As bruxas, adivinhas ou mulheres de virtude estão muito decadentes na corte infernal: as que se encontram es- tão velhas e indigentes e vivem á custa da ignorância por diversas — 38 — astúcias. E |)rofissão desacreditada e apenas explorada pela misé- ria. Já lá vão os felizes tempos em que por interesse e gosto se podia cultivar a arte diabólica. No sexo forte também ha indivi- dues que teem pacto intimo com Satanaz: são os lobishomens, raça çstupida e manhosa, que só se distinguem pelas desgraças do seu triste fadário. Coitadinhos U Pelo que deixamos dito se conhece que a tia Engracia não era uma bruxa vulgar mas mulher muito ladina, sem lettras mas com boas tretas na arte nigromantica. Especulava com a credulidade do forasteiro conforme o grau de illustração que lhe reconhecia. Depois de pequena pausa continuou: «Saibam que Satanaz, rei dos infernos, tem a cauda comprida e recurva, que esconde dificilmente: por mais cuidado que empregue quasi sempre fica a pontinha de fora, e os rapazes logo a descobrem, motivo por que tanto d'elles se receia. A sua coroa são dois bellos cominhos sabidos da vasta trumpha avermelhada. Os seus principaes agentes são as feiticeiras, e doestas o que poderei dizer que os senhores ignorem? As antigas acabaram; pertencem á historia. As de hoje são apenas honorificas e muito conhecidas de Vossas Senhorias que frequentam a sociedade elegante. São entes humanos, de corpo delicado, rosto formoso, lábios cor de rosa que parece brotarem perfume, voz melodiosa, embriagando pelo encanto, olhos de um aveludado que fascinam de meiguice e inspiram torrentes de poe- sia, mesmo aos que não são poetas. Também as ha de falsa en- cadernação, com a face coberta de pós de arroz e encarminada, chegando o arrebique até o esmalte, cabello.. . dentes. . . são as fraquezas do sexo: para augmentar ou conservar o dominio sedu- ctor... valem-se de muitos recursos artisticos, tanto da pintura como da esculptura. Os homens sentem infinito prazer em se dei- xarem enfeitiçar por estas creaturas tanto de belleza natural como artificial, e dificilmente lhe descobrem as manhas e o pacto com o diabo.» Ao terminar a predica levantou os óculos para a testa e mu- dando de tom disse: «Vamos ao que importa. Os senhores do que' mais precisam é do infalivel conjuro para o salgam ento da porta do ente amado: tem de ser feito três noites seguidas, e o coração da pérfida ficará todo ternura e constância. Não ha indifferentismo nem leviandade que lhe resista. Ainda não falhou... experimen- tem se querem gosar amor feliz. . . Pela oração cada um paga se- gundo a sua generosidade.» — 39 — Atirámos-lhe para o regaço dois cruzados novos, moeda en- tão corrente, e dissemos a duo: — venha a oração. A velha deitou lusio ardente sobre a espórtula, que arrecadou logo com certa soffreguidão, e com voz um pouco tremula disse: escrevam que eu digo-a de cór. Abrimos a carteira e transcrevemos ipsis verbis o que a me- gera dictou, e que nos dá hoje a ventura de offerecer a prodigiosa oração-talisman aos amantes infelizes: «A porta de. . . venho resalgar, para o meu bem e não para o meu mal, para que ao marido, amante ou namorado que aqui quizer entrar se arme tal rio, tal mar, tal guerra e tal desunião como Ferra-Braz com seu irmão: esta (deita uma mão cheia de sal) é para Caiphaz; esta (outra mão cheia de sal) é para Pilatos; esta (terceira mão de sal) é para Herodes, e para o diabo coxo, que lhe aperte o garrocho que o faça estalar, e não possa descan- çar sem á porta assomar quando eu passar e commigo falar; tudo que souber me contará, tudo que tiver me dará, todos os homens abandonará e só a mim amará.» III LOBISHOMEM E ASÍNINOHOMEM O medico Oribazo, que viveu no tempo do imperador Juliano, descreveu assim os lobishomens: a. . . os atacados d'esta moléstia sahem de casa por alta noite, imitando os movimentos do lobo, e vagueam pelos cemitérios em volta das sepulturas até ao amanhe- cer. Teem a tez pálida, os olhos encovados e sem brilho, a bocca rasgada com os dentes sabidos, os beiços grossos e cabido o infe- rior, e muitas vezes em sitios ermos, arrastam-se com as mãos pelo chão.» Esta extravagante superstição, attribuida á influencia do diabo, foi muito explorada em epochas passadas. A sciencia julga-a um estado mórbido com alterações mentaes. Nos individuos de exces- sivo temperamento nervoso o ouvir de continuo historias de trans- formações de entes humanos em animaes selvagens ou domésticos, era o bastante para se lhe desenvolver a mania e convencerem-se de que estavam realmente transformados. * ^ Mr. Charcot teve ultimamente na sua clinica do Hospital de Salpetière um caso interessantíssimo de loucura {^oanthropià). A enferma era uma for- mosa rapariga de 14 annos, com olhos azues muito meigos, e cabellos loiros. Conversava muito atiladamente; mas, quando lhe dava o accesso, tornava-se de uma physionomia rude, com os olhos convulsos, a bocca crispava-se-lhe e os lábios descoravam. Atirava-se ao chão, saltava ás cadeiras e mesas com ex- trema facilidade, soltando miados doloridos e plangentes, depois uivos e guin- chos como os gatos assanhados, seguidos de píft. . . pfFt. . . tão característicos — 41 — Os médicos gregos chamam a taes doentes hycantrophos, e abundavam muito na edade média. Quando a mãe tem successivamente sete filhos machos, só chamando-se o ultimo Manuel escapa de ser lobishomem ou asi- ninohomem. Se lhe põem outro nome, fica com o fadário de ir to- das as noites a uma encruzilhada, onde se tenha espojado qual- quer animal quadrúpede, despir-se, dar cinco voltas, e espojar-se também no mesmo logar, e a transformação em lobo ou burro faz- se pelo encanto. Os lobishomens e asininohomens são inoífensivos ; andam ape- nas comprindo a triste sina, procurando sempre os sitios ermos e pouco alumiados. Quando andam fora do encanto, distinguem -se dos outros homens em terem as orelhas mais cumpridas, as ventas arrebitadas e escuras, o olhar de soslaio e o hálito fétido. São muito desconfiados, tem a voz débil, difficil e guttural, as phalanges dos dedos das mãos, na face dorsal, callejadas, cabellos vastos e em- maranhados, de cor ruiva com laivos escuros, que muitos confun- dem com os restos da agua circassiana, e da cova do ladrão cahe uma pequena guedelha em caracol. Lobishomem, esta etymologia só é bem cabida quando o ho- mem se transforma em lobo, o que tem sido pouco vulgar no nosso paiz, que, talvez, por ser quente, o homem se metamorphoseia as mais das vezes em burro, e n'este caso deve dizer-se asininoho- mem. Segundo as regras da nigromancia a bruxa só pode tornar em lobishomem ou asininohomem o mortal que se ache em sesão pró- pria, e não esteja munido com os preservativos. Estas mutuações de pelle tem logar ordinariamente de noite, subsistindo no individuo durante o dia certo grau de desconfiança estúpida. Se o leitor quizer um curso completo doestes assumptos leia a Historia das imaginações extravagantes de Mr. Oujle, causadas dos mesmos animaes, e brincava com qualquer objecto que se lhe collocava adeante. A crise ainda augmentava, procurando com raiva morder as pessoas presentes. Em seguida lambia as mãos, roçava-se docemente pelos assistentes e pelas pernas das mesas e deitava-se. Assim terminava a crise, que de ordi- nário durava vinte minutos. Em tSSgt falleceu em New- York o bispo Irving, notável pelas suas expe- riências na caialcpsia histérica, procurando adivinhar o pensamento de pessoa presente. • — 42 — pela leitura dos livros que tratam da magica, dos endemoninhados, feiticeiros, lobishomens^ dos demónios incubos, succubos, das fadas, dos monstros imaginários, duendes, génios, phantasmas, almas do outro mundo, dos sonhos, da pedra Philosophal, da astrologia ju- diciaria, dos horoscopios, tahsmans, dias feh^es e aziagos, etc, etc. Este encantador livrinho foi traduzido em portuguez no anno de I 814, com licença da Mesa do Desembargo do Paço. A razão de ser o burro no nosso paiz o escolhido para estas transformações infernaes, não se acha demonstrada philosophica- mente. Dizem que o pobre animal em pequeno enganara o diabo, mostrando uma agilidade e esperteza que mais tarde perdeu; e que, talvez, d'ahi proviesse a sua condemnação ao despreso. O burro é quadrúpede ignorante mas tão paciente, que só tem um rival — o camello, com inquestionáveis direitos á estima e con- sideração dos homens, das mulheres e das creanças que lhe são affeiçoadas: basta contar os relevantes serviços que presta e tem prestado. O ditado popular considera-o garantia para maus caval- leiros, dizendo: antes burro que me leve que cavallo que me der- rube. O burro come pouco e trabalha muito, devendo, talvez, a isso ter tido famosos panegyristas como foi na antiguidade Aristóteles, Plinio e Marco Varron, e posteriormente o sublimaram em versos heróicos, sendo bem notável o romance de Hieronimo Cortez Va- lenciano. * Em Portugal tivemos os Burros do P.® José Agostinho de Macedo, que os satyrisou n'um poema-heroi-comico, e não sa- tisfeito com tal diatribe publicou o apologo O Burro, A historia sagrada faz da fêmea azinina menção honrosa, por haver transportado no seu dorso a familia de S. José, quando fu- gia para o Egypto; e por tão assignalado serviço, diz a lenda, foi a jumentinha abençoada por Nossa Senhora. Este solipede teve também a gloria de transportar sobre o seu dorso o oiro da Arábia, o incenso e a myrrha de Sabá, presentes * Historia de los animales terrestres, cap. n. — 43 — que os três Reis Magos levaram ao Menino Deus recemnascido, pelo que diz a velha canção: Aurum da Arábia Thus e myrrham de Sabá Tulit et ecclesiam Virtus asinaria. Um dos maiores feitos de Sansão foi, inquestionavelmente, quando, armado da valente queixada de um burro, matou milhares de philisteus. Diz Hieronimo Cortez: Y nó solamente vivo Tiene el asno fortalesa, Pues Sanson con la quixada Mato gente Filistea. Em Verona e em muitas cidades da Franca fazia-se todos os annos a festa do burro, em que este animalejo tinha o seu logar reservado na capella-mór do templo, entoando o povo um cântico em seu louvor, e como amostra transcrevemos uma das quadras: Ecce magnis auribus Subjugalis filius, Asinus egregius Asinorum tiominus ! O coro da canção é em francez: Hez, sire asnos Car chantez, Belle bouche rechignez, Vous avez du foin assez Et de Tavoine a planter. Em Beauvais celebrava-se egual festa a 14 de janeiro. Havia procissão onde figurava uma jumenta luxuosamente ajaezada e mon- tada por formosa rapariga, levando no coUo uma creança. Repre- sentava a fugida para o Egypto. Este grupo entrava solemnemente com as irmandades para a capella-mór, onde em seguida se can- tava missa, com coros em latim, terminando com o estribilho: hi hum, hi hum^ hi hum, arremedando o zurrar de muitos burros. Isto tinha logar no xii século! _44-^ Portugal ainda possue immensos presépios, onde o bestial onagro occupa também posição considerada; mas apresenta-se sem- pre modesto, com a indolência da humildade, as enormes orelhas abatidas, e a ossuda caveira a chamar o ridículo. Os latinos chamam-lhe asinus e jumentum; os gregos anos e chilos; os hebreus ayr, e depois de ser cavalgado chamar; os fran- cezes âne; os italianos jasino; os hespanhoes asno: e nós os portu- guezes, não achando ainda bastante a designação de asno, onagro Q, jumento, creámos as originaes de jerico e burro. Na synonymia d'este animalejo nenhuma outra nação nos deita a barra adeante! Plinio, um dos naturalistas que primeiro e melhor estudou o asinus, diz: ser pachorrento, melancholico mas tratavel, parco na comida, pois lhe bastam só cardos e tojos para andar anafado, muito timido em razão do seu grande coração, sadio, mas frio e húmido de natureza, e por isso se não cria nas regiões septentrio- naes. A sua teimosia é proverbial; o azorrague e o cacete moem- Ihe a carne até aos ossos, mas nunca o convencem, e difficilmente o fazem mudar de rumo. A nobreza dos seus sentimentos permitte-lhe quebrar mas não torcer. O valenciano Cortez difine assim as sublimes qualidades d'este solipede : Para detenello, un xó Puede más que treinta riendas Para que camine, un arre Vale más que veynte espuelas. No ay animal tan valiente Como el Asno es cosa cierta; Pues un Asnillo a un Leon A cozes dio muerte fiera. As partes do corpo do utilissimo animal foram muito mani- puladas nas antigas pharmacias: basta ler o Portugal Medico., do nosso dr. Braz Luiz de Abreu. «O sangue do jumento tirado detraz de uma orelha e mistu- rado com a infusão da erva cidreira, além de outras virtudes, afu- genta ou diminue os achaques introduzidos por encanto e feiticei- ria. «As unhas teem logar de honra logo abaixo da unha da grau- — 45 — besía^ no tratamento dos accidentes histéricos, podendo n'este caso serem substituidas pela caveira. «O leite da asna tem sido sempre um bom conforto para pei- tos débeis: Plínio escrive, que la leche Del asna bevida es buena Para el tossigo, y veneno, Y librar de pestilência. ^ O esterco, principalmente o produzido na primavera, e o dos burrinhos novos, torrado ou feito em xarope é infalível contra os fluxos sanguíneos. «A pelle, á laia de colchão, servindo de cama ás creanças ti- ra-lhe o medo e torna-as ousadas. É também apreciadíssima pelos timbaleiros. » «O fígado, assado, e comido em jejum, é contra os accidentes de gotta coral: Dioscorides nos avisa, Que si un enfermo almuerça Sus higados, sanará De gotta coral e lepra. ^ <rA urina, misturada com o lodo do fundo dos cântaros, ou ta- lhas de agua e applicada em linimento, oppugna os achaques dos rins, da sarna, callos, etc.» Finalmente, tudo que compõe o corpo de tão bondoso solipede tem propriedade curativa, que a moda baniu da pratica, talvez çp.m bastante detrimento da saúde dos povos. Só nas aldeias, onde e^tas boas tradições custam a esquecer, é que algum barbeiro- curandeiro vae, ás escondidas, com taes mesinhas salvando das garras da morte um ou outro misero enfermo, que teve a ventura de lhe cahir nas mãos. Basta de virtudes burricaes. Se as trouxemos tanto a pello foi para demonstrar á maior evidencia as dividas que o género humano tem contrahido com o triste jumento, a quem o diabo, por embirração particular, foi escolher a pelle para encadernação nocturna dos misantropos feiticeiros, chamados asininohomens.

Portugal Médico (1726)

É uma das mais perfeitas erratas que já li, que me foi mostrada pela mão de Duda Guennes no livro Portugal Médico, Brás Luís de Abreu, 1726, impresso em Coimbra:

"Parece preciso advertir ao leitor que neste livro há-de encontrar vários erros e descuidos do prelo, calamidade a que está sujeita qualquer obra que se imprime sem a presença do seu Autor, como sucedeu a esta. Não se apontarão estas erratas porque os eruditos e curiosos facilmente as poderão emendar onde as toparem, e os ignorantes e descuidados ainda que lhas apontem não as emendarão."