Juízos EPHÉMERos : prosa ligeira, jornadeando
ao acaso, conceitos em transito,
idéas de livre curso, vozes que se perdem, cantando,
no diapasão do vozeio geral.
São paginas, menos escriptas do que salpicadas,
em borrifo, a cada moiivo da vida, a cada impressão
do mundo, na órbita dos meus senlidos e na ordem das
minhas cogitações.
Quando, bem ou mal, se adquire fama de poeta
(porque a evidencia literária, ou politica, vesle de ru-
bro as criaiaras mais incolores), escusado esforço é.
todo surto para outros horizontes.
Bem assim que o azeite sobrenada á agua, o titulo
de poeta, o sello do parnaso, fica boiando á tona, em
todos os mergulhos a que se aventure o escriptor — na
industria, na sciencia, nas Letras prosaicas.
Pôde elle afundar, bencdiclinamenle. nos claus-
tros e nas bibliothecas, nos laboratórios, nas retortas :
nunca será, no consenso, um chimico, um historiador,
um sábio. Prosas que escreva, lastreadas, porventura,
de algarismos pesados, principias graves, indagações
profundas — são, irremissivelmente, prosas de poeta. . .
E não se quer ver que o poeta é, como nós todos.,
o twmem de seu lempo, vivendo em sociedade, parti-
cipe da angustia geral, comnuinganle na alegria e na
duvida apprehensiva dos seus coclaneos.
Ainda mesmo nos raros lazeres que lhe concede
a actividade social, para escalar o Monle-Sagrado,
elle sobe lentamente, ruminando as philosophias do
momento, olhando para os aspectos da encosta, as ma-
ravilhas da paizagem e do firinamenio em torno, pa-
rando á indecisão de cada encruzilhada, informando-
se com os viandantes, sorrindo da ingenuidade dos
homens, lastimando a incúria das autoridades, for-
mando os seus juízos de cada coisa, juizos instáveis,
como todos os juizes humanos — juizos ephémeros . . .
A confusão contemporânea é, sem duvida, im-
propicia aos grandes philosophos. Por isso mesmo,
á ausência desses divinos monopolizadores do Conhe-
cimento, cada'um de nós tem a sua migazinha de phi-
losophia e cultiva as «suas idéas)>, que são, muitas
vezes, as idéas de iodos.
— o
E os podas, grandes e pequenos, forçosamenie
participam desse universalissimo direito — a menos
que a indisciptina moral e os desvios de tara Ities pro-
longuem o sonho de arte, que é uma rara fu noção sub-
jectiva — funcção de eleição, portanto — em sonho
objectivo de alcoolista ou morphinómano.
As paginas que se vão folhear, dizem — sem elo-
quência, é claro — de um espirito curioso e simples,
que, em prosa ou em verso, não se desinteressa da vida,
em nenhuma das modalidades ao alcance da sua per-
cepção, e vae vivendo, o mais que pôde, em sua época
e em seu scenario, o tempo e o espaço que o destino lhe
destinou. - ,
E a própria experiência nos assegura que ainda
é possível pensar, seriamente, dos outros e de nós mes-
mos, sem o uso forçado de óculos caturrislas. e amar
espiritualmente a vida, idealizal-a em bclleza e emo-
ção, mesmo que se não use a cabelleira antiga dos poe-
tas desaccordados e vadios. . .
os MOV05 RYThlMOS
DA VIDA
ASUCCESSÃO dos factos e a evolução dos
usos tendem a accelerar, dia a dia, o rythmo
j da vida contemporânea, propulsionando-a
em movimentos que levam á vertigem e em pul-
sações cuja intensidade vibratória vae mantendo-a
em estado normal de febre.
Reina em todos os desejos e em todos os negó-
cios a preoccupação geral da synthese, de sorte que
em todos os ramos da intelligencia e da actividade
a fórmula victoriosa é a do Máximo no Minimo, isto
é, a possibilidade de essencializar no minuto que
passa, todas as sensações da hora que vem.
Nessa lucta constante de motores e dvnamos
forças cegas que o homem põe a febricitar na anciã
de resumir, em seu proveito, o tempo e o espaço, e
em que a locomotiva cede á aeronave, o theatro ao
cinema, o livro ao magazine, o desenho á vinheta, a
paixão ao capricho, o amor ao béguin ; nessa effer-
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vescencia rotativa, turbilhonante, que é, em nossos
dias, a civilização — a noção de julgar, de bem apre-
ciar 03 valore? humanos, cada vez mais se burla, se
difficLilta. e, de restriccão em restriccão, resultará
em impossibilidade absoluta.
Já se disse uma vez que a idéa de Justiça con-
substanciada no facto de arvorar-se um homem em
juiz de outro é, por si mesma, uma injustiça.
Essa injustiça, si assim devemos consideral-a,
ha de accentuar-se cada vez mais.
Porque em outros tempos havia o exercício da
Justiça. Não me refiro á «justiça judiciaria» de en-
carcerar ou eliminar homens, para prover á tranquil-
lidade das maiorias humanas. Refiro-me á grande
Justiça, no valor universal da expressão, fadada a
estabelecer medidas e aferir expressões de força, sob
as normas da razão e da verdade.
Essa capacidade de julgar, outrora em marcha
ascendente e a cujo estádio final de aperfeiçoamen-
to chamávamos Posteridade, começa a diminuir e des-
cer. . . por excesso de velocidade.
O conceito da Posteridade consistia em julgar
subjectivamente, num tribunal de serenidade e in-
suspeição, o que a contingência humana teria, em
juizo coevo, exaggerado ou reduzido, ao sabor das
paixões e dos sentimentos ephemeros e dúbios.
Esse conceito era acceitavel em outros tempos.
O rythmo da vida era outro — uma repousada ca-
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dencia de pêndulo, obrigada a horário prestabele-
cido. Havia tempo a cada um, para viver a sua vida,
e para reviver, em reflexão e estudo, a vida dos he-
róes da Espécie, justiçando-os, de conformidade
com a tradição e os residuos moraes de cada perso-
nalidade, ou reformando o julgamento, para melhor
ou peor, no plenário da justiça definitiva.
Era o tempo dos archeologos, dos bibliophilos,
dos mineradores da Belleza morta e da Verdade es-
quecida. Os sentidos do homem, não viciados ainda
pela perfeição artificial que lhes esgota a faculdade
de percepção logo aos primeiros annos da adolescên-
cia, tinham uma capacidade mais viva de surprehen-
der e assimilar, E podia-se asseverar que a tendên-
cia geral da Cultura era a de estender-se e intensi-
ficar-se.
A tendência moderna é inteiramente outra, por-
que outro é o rythmo da vida.
Desappareceram, por assim dizer, os «sábios».
Vieram os especialistas, o que não é a mesma coisa.
Foram-se os grandes benedictinos das idéas e
dos sentimentos, os philosophos e os moralistas, ca-
pazes de se agoniar, a existência inteira, na pesquiza
de uma verdade, na rehabilitação de um nome, na
demonstração de um principio.
Eram elles que preparavam o processo da jus-
tiça humana para a glorificação porvindoura. Eram,
dess'arte, os «juizes preparadores» da sentença da
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Posteridade. Viviam, abnegadamente, menos o dia
do que a véspera, na preocciípação nobilitante de
esclarecer o amanhíin.
Nos dias vigentes, esses apóstolos irrhetoricos,
esses cuja raça visivelmente definhante, quasi ex-
tincta, se insula em suas thebaidas como gente ven-
cida ou inadaptada, seriam absolutamente ridículos.
O século é de negocistas, não de idealistas: viver
para o lucro, como os agiotas. Os que divergem disso e
ainda vivem pelas idéas, são ideotas, com e ou com i. . .
Que ha de ser, pois, da nossa Posteridade, de
que ainda falamos religiosamente, como da dos nos-
sos antepassados, si os nossos juizes preparadores,
os homens coetanos, não se occupam sinão àomomen-
io presente, do negocio presente, do desejo presente, e
ainda mesmo os que fingem cogitar do passado e do
futuro, só o fazem no afan egoísta de vir a repousar
mais depressa, e para isso reforçam febrilmente o
motor intimo da ambição ?
Scientistas e poetas, cabotinos e ingénuos, fa-
lam ainda em juizos pósteros. A Posteridade tomou
um significado simplesmente religioso, mas, como
quer que seja — um significado.
Pois não é um consolo para os martyres acredi-
tarem seriamente no céo ? Seja a Posteridade uma
ficção de outra, vida, um novo céo, o consolo ingé-
nuo dos esquecidos e dos atropellados da vida espi-
ritual
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Mas, hoje, os homens intelligentes vão, pouco a
pouco, descrendo desse mytho humano.
Em todos os «intellectuaes» começa a haver uma
pequena dose de arrivismo. Já nem alludo aos que
são puramente arrivistas, cento por cento, e desses
anda cheia actualmente a arte, a sciencia, o commer-
cio, a lavoura, a politica, a sociedade, á vida.
O especialista confia plenamente em sua desco-
berta. O escriptor confia seguramente em sua obra.
Mas a posteridade é, afinal, uma simples palavra e o
seguro morreu de velho. D'ahi a necessidade de ar-
chivar-se cada um em vida nos pantheons, nas
companhias illustres, nos institutos de Immortali-
dade, nessas casas de seguros de vida subjectiva.
Assim, o especialista faz-se «entrevistar» pelos
jornaes e vae desde logo summariando os seus estu-
dos e as suas experiências, dando a pista certa, ou
conveniente, para que o jornalista, com uma bôa
reportagem espectaculosa, desbrave o caminho e
garanta o juizo da Posteridade. . .
Com o escriptor, é o mesmo processo. EUe sabe
que o livro está lastreado de génio, ou de . . . colla. Sabe,
tem certeza. Entretanto, são capazes de o não abrir. . .
Ha falta de tempo nas redacções. .. Si o lessem,
achariam o veio de ouro. Mas, si o não lessem ?
Por via das duvidas, o escriptor leva pessoal-
mente o livro ao jornalista. . . E' o primeiro «auto»
do processo para ã Posteridade.
Hermes Fontes — Juízos Ephemeros 2
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Si o escriptor é cyiiico e o jornalista é um titere
(hypothese muito possivel), o autor pede franca-
mente um artigo elogioso que faça effeito nas «rodas»,
e successo, nas livrarias, ou, á hesitação do jornalis-
ta, o próprio autor faz o elogio e subscreve, daia
vénia, com o nome do jornalista, o qual terá vencido
a primeira etapa em sua carreira de critico. . .
Si é pudico o novo poeta, philosopho, ou inventor,
não pede, nem faz: insinua e- informa. Explica o
programma da obra, o itinerário percorrido, os óbi-
ces afastados. . . E abre também o seu caminho aos
«posteros)). . .
Negar a verosimilhança dessas coisas seria to-
líssimo.
Politicos e esthetas, administradores e aulicos,
todos comprehendem perfeitamente que o rythmo
actual da vida não comporta aquelles escrúpulos dos
antigos heróes, só mais tarde desentulhados de sécu-
los e séculos de esquecimento pela mão generosa de
pesquizadores altruístas.
E não só cada um procura montar methodica-
mente o machinismo da sua gloria, sendo que ai- ^
guns fundam verdadeiras repartições de elogio per-
manente para não se arrefecer a Pyra sagrada ; não
só instituem habilmente o seu «seguro de vida» espi-
ritual, como subrepticiamenle buscam desmontar o
«laboratório» dos collegas, negando-os, diminuindo-
os, isolando-os.
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Ahi está porque para cada artista, mesmo dos
verdadeiros, noventa por cento dos outros artistas,
também verdadeiros, são uma quadrilha de inca-
pazes.
Ahi está porque, no interesse previdente de
sobreviver, se juntam, não raro, aos três e aos qu-a-
tro, em intimas associações de auxílios mútuos, ne-
gando pão e agua aos outros, aos concurrentes á
ceinture d'or da Posteridade.
Felizmente, a intellectualidade brasileira con-
temporânea, porque se affirma forte e nitida, po-
deria abrir mão desses processos alijatorios, si, aca-
so, os cultivasse.
Cada qual deve insinuar os seus méritos, foca-
lizal-os mesmo, no limite da compostura pessoal e
da dignidade profissional, sem, todavia, organizar
allianças defensivas e offensivas, sociedades mor-
monicas, beneficências combinadas.
A despeito da acceleração constante dos nossos
rythmos, o profundo céo tropical nos vocaciona na-
turalmente para o sonho e para o êxtase.
Num paiz sem leitores nem editores, somos, ao
que se diz, um povo de poetas. Poetas quasi sempre
ruins, sem compenetração própria, sem orientação
pessoal e que não se cansam de temperar, com ra-
padura, canella e herva doce, as mesmas sensuali-
dades hystericas, as mesmas ternuras melómanas.
Mas, de entre essa legião immensa, que poderia
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encher a Avenida com um meeiing colossal, ha, sem
duvida, uns vinte nomes fadados a apreciáveis desti-
nos e uns três ou quatro que hão de, fatalmente, ser
lembrados, de hoje a cem annos.
Esses triumpharão, qualquer que seja o rythmo
vigente.
Teria sido possivel eliminal-os in ovo.
Armado, porém, o surto, é balda antipathica a
de depennar azas e desmanchar poleiros, porque as
pennas teriam renascido e as arvores teriam offere-
cido em seus ramos poleiros naturaes para todos os
pássaros . . .
Mas a posteridade deixou de ser obra dos deu-
ses para ser creação dos homens.
E' preciso, ainda assim, dignifical-a e exaltal-a,
de sorte que nunca cheguem á admiração dos nossos
netos nomes de mentira, figuras de palha, almas
de empréstimo, heróes de espada de papelão. . .
A5 TRE5 CU1TURA5
EM annuncio, ao portal da Sorbonne. esse titulo
faria curiosidade e sensação. As três cultu-
ras... Seria o thema de uma conferencia
encyclopedica, um discurso de omnisciente, que,
ainda mesmo no mundo da ficção pura, excederia as
minhas forcas.
Faltam-me as boas maneiras de cathedratico
e, mais do que isso, a fundura de estudos e a reser-
va de idéas, necessárias á solemnidade da these e á
segurança de sua defeza.
Sem esse exórdio, não me aventuraria ás consi-
derações que se vão ler, menos graves do que alegres,
o que não quer dizer disparatadas.
As três culturas : Parecerá que são a franceza,
a ingleza e a allemã, culturas com c e com k, com
devaneios esotéricos á Bergson, com epilepsias ful-
gurantes á Nietzsche, culturas a todo sabor, á anti-
ga e á moderna, culturas. . .
Bastaria, para o relativo successo do escripto,
um confronto de creações nas três «frontes» cultu-
raes, a ingleza, a gauleza e a teutonica, a exemplo de
uma demonstração de forças nas três linhas frentaes
da grande-guerra, que ainda é assumpto palpitante.
E haveria argumentos leves, a 75 francez e argumentos brutos
a 420 germânico, de modo a preponderar no rol das maravilhas humanas,
ora, o at- ticismo franco-latino, ora a perspicua sabedoria britannica,
ora, a pangnostica profundidade tedesca.
Sou, porém, dos que se não preoccupam com es-
sa renitência de dar fronteiras á intelligencia e ao
saber, e a quem sempre tenha repugnado esse dis-
parate de territorialismo da civilização, submetten-
do a obra do progresso humano a delimitações pueris
de raça e terra e estabelecendo no dominio das coisas
serias o partidarismo aldeão do cravo e a rosa.
Para mim, não ha sinão uma Cultura — a cultura humana,
a que, como expressão cosmico-social,
chamamos a Civilização moderna e á frente da qual
se tem encontrado pela dedicação orientadora e pela
capacidade de iniciativa, ás vezes a Allemanha, mui-
tas vezes a Inglaterra e, quasi sempre, a França.
Por isso, quando enuncio — as três culturas —
refiro-me simplesmente áquelle mens sana in corpore
sano, phrase illustre, de cujo bojo substancioso se
trifurcaram as três culturas do homem — a physica,
a intellectual e a moral.