A Verdadeira História do ParaísoComo um prefácio OU MESMO DOIS
Capítulo I

Um dia...
...o Todo-Poderoso se levantou naquela imensidão desolada em que vivia, convocou os anjos, os arcanjos e os querubins, e disse: - "Meus amigos, vamos ter uma semana cheia. Resolvi criar o Universo e dentro dele, a Terra e o Paraíso. Além da terra farei o Sol, a Floresta, os animais, os minerais, a Lua, as estrelas, o Homem e a Mulher. E devemos fazer tudo isso muito depressa, pois temos que descansar no Domingo. E no Sábado, depois do meio-dia."

A maior dificuldade de todas, embora pareça incrível, foi lançar a Pedra Fundamental. Os anjinhos ficaram com aquela estrutura imensa na mão, suando enquanto o criador hesitava, diante da opção total de um espaço infinito. Afinal Ele decidiu mesmo lançar o mundo ao acaso, e o mundo ficou por aí, girando, num lugar mais ou menos instável, uma rotação pra lá, uma translação pra lá, por conta própria.
P.S. Não é erro do desenhista não. A terra era assim, mesmo, quadrada, os antigos estavam certos. Séculos de rotação é que a fizeram redonda. E para os que estão achando nossos anjos completamente desproporcionais em relação ao tamanho da terra, esclarecemos: vocês precisavam ver o tamanho desses anjos! Além do que é preciso esclarecer, a proporção, nessa época, ainda não existia. Só seria descoberta pelos geômetras gregos milhares de anos depois.
Trabalhar no escuro era muito difícil. Deus então murmurou "Fiat Lux". E a luz foi feita.
P.S. Até hoje ainda há uma grande discussão para saber se Deus falava latim ou hebraico.
E fez, em seguida, a Lua e as estrelas. E dividiu a Noite e o Dia.

E DEPOIS DIZEM QUE O NADA NÃO GERA NADA.
Capítulo II

Fez, então, os minerais e os vegetais. Todos os vegetais eram bons e belos e seus frutos podiam ser comidos. Ruim só havia mesmo, bem no centro do Paraíso, a sinistra Árvore da Ciência do Bem e do Mal.

Isto daqui é a Parreira, futuro guarda-roupa de Adão e Eva.
P.S. Os especialistas em modas bíblicas jamais chegaram à conclusão se esse guarda-roupa era uma figueira ou uma videira.
Capítulo III

P.S. Certas habilidades do Todo-Poderoso são, porém, pra mim, pura exibição do óbvio. É claro que, tendo inventado o Cavalo, qualquer um teria inventado a equitação. Notem também que, no quadro, só existe um sol. Os críticos já haviam ganho sua primeira campanha.

Tendo feito a Cabra, esta, subitamente, resolveu dar leite. (Posteriormente a vaca fez a mesma coisa muito melhor e em muito maior quantidade, mas a história das conquistas humanas é mesmo assim.)
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O Mestre bebeu o leite com os anjinhos, aprovou, ordenou à Cabra que produzisse pelo menos mais dois litros diariamente, e o resto jogou fora, pela janela do Universo, formando assim a Via Látea.
P.S. A cabra é uma cortesia de Pablo Picasso.
E fez também...
A COBRA!
e fez o primeiro comercial da história:
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"Meus amigos....POLÍTICO É MESMO A PRIMEIRA PROFISSÃO ANTECEDE EVA E ATÉ ADÃO A DÃO MESMO
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Mas, habilidoso como era, Deus não se deu por achado. E, imediatamente, começou a utilizar a sombra pra fazer seus projetos. Abrindo e fechando a mão espalmada criou um cachorro, movimentando a mão e o braço pra frente e pra trás inventou o pato, e, pegando um galho seco inventou o veado galheiro.
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A "Verdadeira História do Paraíso", foi escrita aos poucos, ao acaso, frases soltas, conceitos ocasionais que me ocorriam enquanto fazia, semanalmente, através dos anos, na revista O Cruzeiro, a seção humorística O Pif-Paf ("Cada número é exemplar. Cada exemplar é um número").
Um dia, no fim da década de 50, não me lembro exatamente quando, num programa de televisão que eu apresentava pessoalmente em Belo Horizonte, estimulado por meu fraterno amigo Frederico Chateaubriand, contei, ilustrando com desenhos, a história completa pela primeira vez. Não sei se houve algum protesto, há sempre, mas a TFP não se desmoronou, o país continuou a avançar nos seus precários trilhos (bitola estreita), e o sol prosseguiu nascendo e morrendo a espaços aproximados de 12 horas.
Posteriormente, a história foi apresentada, também, na TV Tupi do Rio, e num espetáculo teatral, Piftac-Zigpong, antes de ser vendida como matéria especial com contrarecibo e pagamento adiantado, pois eu conhecia bem a administração da empresa, para a revista O Cruzeiro, em maio de 1963. A revista, creio que por motivos de programação, só publicou a história seis meses depois, em outubro, ocasião em que eu viajava pela Europa. Uma noite, estando numa festa em Lisboa, me lembro de que havia, na festa, uma ilustre companhia, desde a senhora Princesa da Fátima à não menos senhora condessa de Paris, pois eu, Proust e Ibrahim Sued estamos sempre nessas, o cantor Juca Chaves se aproximou de mim com aquele ar satânico de quem vai anunciar a repetição do terremoto de 1755 e perguntou: "Você viu o que O Cruzeiro escreveu contra você?"
Mas há ainda outros problemas metafísicos criados pelo TODO-PODEROSO. Aqui, neste mesmo esquema, devidamente numerado, temos quatro desses problemas fundamentais, para meditação do leitor:

1. Responda amigo;
Adão,
Tinha umbigo?
2. Responda irmão;
O pássaro
Já nasce com a canção?
3. O mistério não acaba;
Onde anda o bicho-de-goiaba
Quando não é tempo de goiaba?
4. Mestre, respeito o Senhor,
Mas não à sua Obra;
Que Paraíso é esse, que tem cobra?
Adão,
Tinha umbigo?
2. Responda irmão;
O pássaro
Já nasce com a canção?
3. O mistério não acaba;
Onde anda o bicho-de-goiaba
Quando não é tempo de goiaba?
4. Mestre, respeito o Senhor,
Mas não à sua Obra;
Que Paraíso é esse, que tem cobra?
E assim Adão foi pondo nome em todas as coisas. Só errou no dia em que estava batizando alguns minerais e deu uma topada numa pedra. Foi a primeira vez que uma coisa foi chamada com outro nome.
Adão tinha criado a metáfora.

Continuando, Adão saiu por ali a fora, nadando no rio, comendo dos frutos, brincando com os animais. Mas não parecia satisfeito. O Senhor, percebendo que faltava alguma coisa a Adão, resolveu então lhe dar uma companheira. Ordenou que ele fosse dormir e, como lá reza a História, foi o primeiro sono de Adão e seu último repouso.
Capítulo XIVxixi gamma

Logo que comeram a maçã, por um fenômeno facilmente explicável, Adão e Eva descobriram o Pudor. Perceberam que estavam nus.

Correram até seu armário desembutido, pegaram algumas folhas de parreira, e se vestiram rapidamente.
P.S. Ao contrário do que pensam os mais jovenzinhos, o unisex não é um passo em direção ao futuro. É uma volta às origens.
P.S. Ao contrário do que pensam os mais jovenzinhos, o unisex não é um passo em direção ao futuro. É uma volta às origens.
Parêntesis
O sexo que nós perdemos ou por que não escolheram outro fruto?
O sexo que nós perdemos ou por que não escolheram outro fruto?
Por mais que os homens de batina tentem tapear, o fato é que a maçã, na História Sagrada, significa essa palavra por tanto tempo oculta, escamoteada, falada em voz baixa ou dita na língua do P pelas crianças, quando há adultos por perto: Se-pé-qui-pi-ssô-pô. SEXO. Agora, perguntamos nós que tanto entendemos do assunto: por que a maçã, de tantos frutos insípidos provavelmente o mais insípido, foi servir de símbolo e, pior, modelo, para coisa tão fundamental? Numa enquete que fiz aqui no meu estúdio, a votação foi unânime: minhas trinta e oito secretárias (em sua maioria visitantes) declararam peremptoriamente que, se estivessem no Paraíso em lugar de Eva, e fossem tentadas por uma maçã, não teria havido expulsão, nem ódios, nem guerras e todas essas coisas que dizem originadas pelo gesto de desobediência do protocasal. Evidentemente devia haver outras frutas mais saborosas e mais suculentas no Paraíso. E, ao pensar nisso, choro de frustação, imaginando o sexo que nós perdemos. Sim, irmãos, pois se a maçã, tão sem gosto, corresponde ao sexo que temos, vocês já imaginaram o sexo que teríamos se a primeira dama nos tivesse tentado com um tamarindo bem maduro, desses de dar água na boca?
Poderão objetar os mais espertinhos que o sexo — i.e., o fruto — não foi escolhido por Eva, mas determinando a priori pelo Todo-Poderoso, que exigiu a seus filhos não tocarem naquela árvore, porque exatamente aquela árvore era a — ai! — perdição. Mas está visto que o Senhor, que fez tantas com seus filhos terrenos, tapeou-os aí também: todas as árvores do Paraíso eram igualmente sexuais. Proibindo a macieira Ele levou o homem, fatalmente, a escolher o pior dos sexos. Dizem que em Marte, planeta melhor aquinhoado pelo Senhor, o sexo é algo de realmente sensacional, múltiplo e prolongado. Sem falar em Vênus, onde, sabe-se, o homem e a mulher, quando foram expulsos de lá, já tinham comido de todas as árvores, sem contar que misturaram sucos, fizeram saladas de frutas, batidas, molhos, e ainda partiram para experiências mais complexas convidando todos os animais a participar do desrespeito geral, em sodomias inimagináveis. Deve-se a essa extraordinária previdência e espírito experimental dos primeiros seres de Vênus, a fantástica variação e a incrível intensidade dos prazeres sexuais que possuem hoje os habitantes daquele notável planeta, fabricantes, aliás, de anticoncepcionais de eficiência inigualável.
Poderão objetar os mais espertinhos que o sexo — i.e., o fruto — não foi escolhido por Eva, mas determinando a priori pelo Todo-Poderoso, que exigiu a seus filhos não tocarem naquela árvore, porque exatamente aquela árvore era a — ai! — perdição. Mas está visto que o Senhor, que fez tantas com seus filhos terrenos, tapeou-os aí também: todas as árvores do Paraíso eram igualmente sexuais. Proibindo a macieira Ele levou o homem, fatalmente, a escolher o pior dos sexos. Dizem que em Marte, planeta melhor aquinhoado pelo Senhor, o sexo é algo de realmente sensacional, múltiplo e prolongado. Sem falar em Vênus, onde, sabe-se, o homem e a mulher, quando foram expulsos de lá, já tinham comido de todas as árvores, sem contar que misturaram sucos, fizeram saladas de frutas, batidas, molhos, e ainda partiram para experiências mais complexas convidando todos os animais a participar do desrespeito geral, em sodomias inimagináveis. Deve-se a essa extraordinária previdência e espírito experimental dos primeiros seres de Vênus, a fantástica variação e a incrível intensidade dos prazeres sexuais que possuem hoje os habitantes daquele notável planeta, fabricantes, aliás, de anticoncepcionais de eficiência inigualável.
Capítulo XVI

E lá se foram Adão e Eva, expulsos daquela residência magnífica, sem receberem sequer aviso-prévio, sem que Deus demonstrasse o menor respeito pelas leis (naturais?) do inquilinato.

Toda desvantagem porém, como lá diz o outro, tem sua vantagem: Adão e Eva, que tinham descoberto, através da maçã, os prazeres do sexo, expulsos do Paraíso perceberam imediatamente que, sem a maçã, a coisa era muito melhor.
Parêntesis
A
LESTE
DO
ÉDEN



