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divendres, 3 d’octubre de 2014

Ephemeropteren und Trichopteren von Nowaja Semlja Ephemeral Civilization Dizem autorizados mineiros e escaphandristas da archeologia humana (aquelles curiosos espiritos que vivem mergulhados ou entocados em civilizações esboroadas ou submersas), dizem elles que, desde a Grécia heróica, o exercício dessa tri-cultura foi uma constante preoccupação publica e privada. Não me consta, porém, que, já naquelles tem- pos, tenham ellas (as três culturas) apparecido si- multaneamente em um só homem. Não sei si Plutarcho, um dos precursores e exe- getas da cultura moral, teria tido ao mesmo tempo, a sabedoria profunda de Aristóteles e a muscula- tura épica de Achilles, ou si, por exemplo, Leonidas, avistando-se, porventura, no tempo e no espaço com o Thales de Mileto e o Catão romano, juntaria ao seu heroísmo das Thermopylas o de levar á parede, no sentido scientifico, o fundador da escola jonia e ao prototypo da moral-fiscal de posteriores tempos, mais austeros. Sei, entretanto, que, em nossos dias, as três culturas raramente se encontram associadas. Dir-se- ia de cada uma delias ser um ramo isolado de ar- vores differentes, entre si enxertadas artificialmente como ensaio botânico daquelle sinistro roble teuto- nico preconizado por Maximiliano Harden — sym- bolo vegetal da philosophia da Força. E' certo que em Maurício Maetterlihk, aqui ci- tado pela necessidade de exemplificar, se encon- — -26 — tram, mais ou menos, os lios ramos. O maravilhoso estheta, que, pela vastidão da sua cultura literária e scientifica, é uma espécie de J. H. Fabre das flo- res, como do ])roprio Fabre se diz ter sido «o Virgilio dos insectos-), ])ratica sinceramente a moral do seu uso e é, ao que li algures, um verdadeiro athleta. A sua cabeça gloriosa assenta sobre um i)escoco á Paul Pons e esse bovino i)escoco se atarraclia num thorax entumecido o largo como o de Johnson, o boxcr. Mas é um exem})Io isolado. Não se conseguiria reunir dez nomes de intellectuaes, que, intencional- mente, se. houvessem feito dreadnouf/Ids anthropoi- cos. Isso é, talvez, lamentável, porque o ideal seria, sem duvida, achar no mesmo homem a intelligencia, a virtude e a forca. Esse ideal é, aliás, pouco attingi- vel, principalmente no B]'asil, onde as coisas mais simplices acabam sempre em exaggerações pernós- ticas. Começamos em confundir cultura phusica com cultura cdhletica e acabamos em deformar esta em theatralismo muscular da forca, pervertido em exhi- bição elegante, com torneios de circo e palpites de jogo- Soubemos, um dia, que os inglezes e norte-ame- ricanos, na estação própria e sem prejuízo á linha dos seus destinos naturaes e deveres sociaes e profissio- naes, cultivavam o foot-ball, a equitação, o rowing, — 27 — etc, e desde logo se creon enfro nós o snobismo dos músculos, e o próprio poder pubíico entrou a colla- borar na moda nova. fomentando-a com subvenrões e estímulos. Desde então, ás velhas pragas do bacharelis- mo, do burocratismo e do literahsmo, aliás pragas inoffensivas e de intuitos quasi sempre nobilíssimos, se incorporou a praga nova do sporlismo, praga até certo ponto nefasta, porque, sendo o brasileiro natu- ralmente éxaggerado, immelhodico — e incapaz, por isso, de fazer duas coisas úteis, ao mesmo tempo — a doença do sportismo fez, pouco a pouco, das escolas e dos lyceus Jogares massantes ou Von s'ennuie. . . Ha cerca de dez annos — vêm minguando con- sideravelmente as gerações de bons estudantes. A preoccupação de «bancos de honra', medalhas, pré- mios, menções honrosas, só tem guarida actualmen- te em meia dúzia de cspiritos ingénuos, provincia- nos... Os programmas escolares ficam sempre re- duzidos ao terço e nos exames íinaes, só é sorteavel o terço desse terço ! o o Para compensar, os grounds e os siands se en- chem. E, para completar o desjDortismo diurno, ha o desportismo nocturno, os clubs elegantes, os jo- gos da meia-noite, os vicios modernos. E', aliás, muito accentuavel que essa mocidade galhofeira é quasi sempre inteiligentissima e tem ar- — 28 — gumentos atticos para a defeza do seu desmantelo galante. Ler e escrever ? perguntam. Ora, Moysés não sabia ler como nós e fez o Decálogo... Escrever? Ora, gastar pennas e aprender calligraphia, quando já ha machinas tão aperfeiçoadas. . . Estudar linguas, línguas vivas ? Ora, aprende- mol-as, praticamente, no cabaret ou no transatlân- tico . . . Alguns, porém, sabem escrever e fazem con- curso para empregos, nas repartições. Escrevem. Mas, incapazes ainda mesmo de copiar, são designa- dos pelos chefes de serviço para lançar nas copias o «confere» regulamentar. Tomam então da penna e começam a escrever «confere» : — Com . . . tem um ou dois ff? E, á natural risada do collega, respondem : Ora, menino. Adopte a phonelica. . . Para esse estado de coisas tem contribuído se- riamente o sportismo, isto é, a mania do desporto, substituindo a cultura physica mais discreta e, so- bretudo, a educação mental. E cumpre assignalar que o que se convencio- nou chamar aqui cultura physica, nada tem a ver com o corpore sano dos antigos. Dou mais pela sanidade physica do sr. Ruy Bar- bosa, que, através de enfermidades intensas e cons- tantes luctas no foro, no jornal, no parlamento e nos — 29 — comícios, conseguiu, sob uma disciplina physica de atheniense, chegar aos 66 annos com uma admirável resistência de saúde, capaz de viajar dias inteiros e discursar horas a fio, do que pela arrogância de cer- tos athletas que, sobre pés tortos e pernas arqueadas, assentam um corpo formidável, protuberando num thorax de ferro e desgalhando em braços cujos bi- cipites parecem kistos de aço encrustados nos tecidos. Nas escolas femininas, notadamente nos collegios a que chamarei «internacionaes», tão recommendados á frequência das meninas ricas, a degeneração gra- photypica é, sobre mais perigosa, mais esthetica, pois que, mantido o uso da penna, se inventou a moda de escrever á ingleza, de sorte que todas meninas têm, incaracteristicamente, a mesma letra — uma letra carregada e angulosa, com lançacos que sobem, remadas que descem, uma liorrivel letra que acutila, mas, pelo menos, é certa e decifravel. E — curioso ! é essa a letra da elegância, a le- tra da grande-roda feminina . . . Sempre se entendeu que só ha elegância onde ha distincção. Conheciam-se as grandes damas pelo talhe fino da letra, pela serenidade, ou vivacidade dos traços. Uma carta feminina trahia desde logo uma mulher, e, ás vezes, a determinada mulher que a escrevera. Havia, por assim dizer, uma escripta pessoal, inconfundivel, nobre, fidalga. Nisso, a dis- tincção. Hoje a «distincção» consiste na «democracia» ; a letra de uma menina ou a de uma senhora é a de to- das as meninas e senhoras : sacudida, angulada, es- petiforme, e essa democracia acutilante é, . . é chie, distincta, é fidalguissima. , . Ha vantagem, não obstante. A letra é legível. — 6-2 — E, com ser vulgar, pôde ser belJa. E, si não iia bel- Jeza, pelo menos ha clareza. Isso, quanto a senhoras e senliorinhas. Mas a escrii)ia dos rapazes é um clamor ! Não sabem escrever. Ha uma repulsa fatídica entre os seus dedos e a canneta. Já era assim, ha tempos. Modernamente, com o apparecimento das machinas de escrever, o fiarei- lo da garatuja é epidemia, devastação, arrasamento. Não sabem escrever ! Não sabem e atacam as van- tagens de sabel-o. Para que escrever ? E' mais bello e mais pratico dactylographar. . . Parece um argimiento, mas é apenas uma eva- siva. Nem é mais bello, nem é mais pratico. Admittido, porém, que o fosse, ainda assim se- ria necessário calligraphar ou, pelo menos, exercitar a bòa escripta. Pelo facto de existir o arado, não se segue que a enxada é inútil. Mais expedita que as mãos huma- nas é a machina de costura. Veio a machina. mas os trabalhos manuaes de agulha, a arte da costura, o bordado, o crochet, os labyrinthos, etc, ficaram cada vez mais valorizados e mais nobres. Assim a dactylographia phoderia ser mais rápida que a manuscriptura e, por isso, mais pratica. . .

 Juízos EPHÉMERos : prosa ligeira, jornadeando
 ao acaso, conceitos em transito, 
idéas de livre curso, vozes que se perdem, cantando, 
no diapasão do vozeio geral. 

São paginas, menos escriptas do que salpicadas, 
em borrifo, a cada moiivo da vida, a cada impressão 
do mundo, na órbita dos meus senlidos e na ordem das 
minhas cogitações. 

Quando, bem ou mal, se adquire fama de poeta 
(porque a evidencia literária, ou politica, vesle de ru- 
bro as criaiaras mais incolores), escusado esforço é. 
todo surto para outros horizontes. 

Bem assim que o azeite sobrenada á agua, o titulo 
de poeta, o sello do parnaso, fica boiando á tona, em 
todos os mergulhos a que se aventure o escriptor — na 
industria, na sciencia, nas Letras prosaicas. 



Pôde elle afundar, bencdiclinamenle. nos claus- 
tros e nas bibliothecas, nos laboratórios, nas retortas : 
nunca será, no consenso, um chimico, um historiador, 
um sábio. Prosas que escreva, lastreadas, porventura, 
de algarismos pesados, principias graves, indagações 
profundas — são, irremissivelmente, prosas de poeta. . . 

E não se quer ver que o poeta é, como nós todos., 
o twmem de seu lempo, vivendo em sociedade, parti- 
cipe da angustia geral, comnuinganle na alegria e na 
duvida apprehensiva dos seus coclaneos. 

Ainda mesmo nos raros lazeres que lhe concede 
a actividade social, para escalar o Monle-Sagrado, 
elle sobe lentamente, ruminando as philosophias do 
momento, olhando para os aspectos da encosta, as ma- 
ravilhas da paizagem e do firinamenio em torno, pa- 
rando á indecisão de cada encruzilhada, informando- 
se com os viandantes, sorrindo da ingenuidade dos 
homens, lastimando a incúria das autoridades, for- 
mando os seus juízos de cada coisa, juizos instáveis, 
como todos os juizes humanos — juizos ephémeros . . . 

A confusão contemporânea é, sem duvida, im- 
propicia aos grandes philosophos. Por isso mesmo, 
á ausência desses divinos monopolizadores do Conhe- 
cimento, cada'um de nós tem a sua migazinha de phi- 
losophia e cultiva as «suas idéas)>, que são, muitas 
vezes, as idéas de iodos. 



— o 



E os podas, grandes e pequenos, forçosamenie 
participam desse universalissimo direito — a menos 
que a indisciptina moral e os desvios de tara Ities pro- 
longuem o sonho de arte, que é uma rara fu noção sub- 
jectiva — funcção de eleição, portanto — em sonho 
objectivo de alcoolista ou morphinómano. 

As paginas que se vão folhear, dizem — sem elo- 
quência, é claro — de um espirito curioso e simples, 
que, em prosa ou em verso, não se desinteressa da vida, 
em nenhuma das modalidades ao alcance da sua per- 
cepção, e vae vivendo, o mais que pôde, em sua época 
e em seu scenario, o tempo e o espaço que o destino lhe 
destinou. - , 

E a própria experiência nos assegura que ainda 
é possível pensar, seriamente, dos outros e de nós mes- 
mos, sem o uso forçado de óculos caturrislas. e amar 
espiritualmente a vida, idealizal-a em bclleza e emo- 
ção, mesmo que se não use a cabelleira antiga dos poe- 
tas desaccordados e vadios. . . 



os MOV05 RYThlMOS 
DA VIDA 



ASUCCESSÃO dos factos e a evolução dos 
usos tendem a accelerar, dia a dia, o rythmo 

j da vida contemporânea, propulsionando-a 

em movimentos que levam á vertigem e em pul- 
sações cuja intensidade vibratória vae mantendo-a 
em estado normal de febre. 

Reina em todos os desejos e em todos os negó- 
cios a preoccupação geral da synthese, de sorte que 
em todos os ramos da intelligencia e da actividade 
a fórmula victoriosa é a do Máximo no Minimo, isto 
é, a possibilidade de essencializar no minuto que 
passa, todas as sensações da hora que vem. 

Nessa lucta constante de motores e dvnamos 
forças cegas que o homem põe a febricitar na anciã 
de resumir, em seu proveito, o tempo e o espaço, e 
em que a locomotiva cede á aeronave, o theatro ao 
cinema, o livro ao magazine, o desenho á vinheta, a 
paixão ao capricho, o amor ao béguin ; nessa effer- 



__ 14 — 

vescencia rotativa, turbilhonante, que é, em nossos 
dias, a civilização — a noção de julgar, de bem apre- 
ciar 03 valore? humanos, cada vez mais se burla, se 
difficLilta. e, de restriccão em restriccão, resultará 
em impossibilidade absoluta. 

Já se disse uma vez que a idéa de Justiça con- 
substanciada no facto de arvorar-se um homem em 
juiz de outro é, por si mesma, uma injustiça. 

Essa injustiça, si assim devemos consideral-a, 
ha de accentuar-se cada vez mais. 

Porque em outros tempos havia o exercício da 
Justiça. Não me refiro á «justiça judiciaria» de en- 
carcerar ou eliminar homens, para prover á tranquil- 
lidade das maiorias humanas. Refiro-me á grande 
Justiça, no valor universal da expressão, fadada a 
estabelecer medidas e aferir expressões de força, sob 
as normas da razão e da verdade. 

Essa capacidade de julgar, outrora em marcha 
ascendente e a cujo estádio final de aperfeiçoamen- 
to chamávamos Posteridade, começa a diminuir e des- 
cer. . . por excesso de velocidade. 

O conceito da Posteridade consistia em julgar 
subjectivamente, num tribunal de serenidade e in- 
suspeição, o que a contingência humana teria, em 
juizo coevo, exaggerado ou reduzido, ao sabor das 
paixões e dos sentimentos ephemeros e dúbios. 

Esse conceito era acceitavel em outros tempos. 
O rythmo da vida era outro — uma repousada ca- 



— 15 — 

dencia de pêndulo, obrigada a horário prestabele- 
cido. Havia tempo a cada um, para viver a sua vida, 
e para reviver, em reflexão e estudo, a vida dos he- 
róes da Espécie, justiçando-os, de conformidade 
com a tradição e os residuos moraes de cada perso- 
nalidade, ou reformando o julgamento, para melhor 
ou peor, no plenário da justiça definitiva. 

Era o tempo dos archeologos, dos bibliophilos, 
dos mineradores da Belleza morta e da Verdade es- 
quecida. Os sentidos do homem, não viciados ainda 
pela perfeição artificial que lhes esgota a faculdade 
de percepção logo aos primeiros annos da adolescên- 
cia, tinham uma capacidade mais viva de surprehen- 
der e assimilar, E podia-se asseverar que a tendên- 
cia geral da Cultura era a de estender-se e intensi- 
ficar-se. 

A tendência moderna é inteiramente outra, por- 
que outro é o rythmo da vida. 

Desappareceram, por assim dizer, os «sábios». 
Vieram os especialistas, o que não é a mesma coisa. 

Foram-se os grandes benedictinos das idéas e 
dos sentimentos, os philosophos e os moralistas, ca- 
pazes de se agoniar, a existência inteira, na pesquiza 
de uma verdade, na rehabilitação de um nome, na 
demonstração de um principio. 

Eram elles que preparavam o processo da jus- 
tiça humana para a glorificação porvindoura. Eram, 
dess'arte, os «juizes preparadores» da sentença da 



— 16 — 

Posteridade. Viviam, abnegadamente, menos o dia 
do que a véspera, na preocciípação nobilitante de 
esclarecer o amanhíin. 

Nos dias vigentes, esses apóstolos irrhetoricos, 
esses cuja raça visivelmente definhante, quasi ex- 
tincta, se insula em suas thebaidas como gente ven- 
cida ou inadaptada, seriam absolutamente ridículos. 

O século é de negocistas, não de idealistas: viver 
para o lucro, como os agiotas. Os que divergem disso e 
ainda vivem pelas idéas, são ideotas, com e ou com i. . . 

Que ha de ser, pois, da nossa Posteridade, de 
que ainda falamos religiosamente, como da dos nos- 
sos antepassados, si os nossos juizes preparadores, 
os homens coetanos, não se occupam sinão àomomen- 
io presente, do negocio presente, do desejo presente, e 
ainda mesmo os que fingem cogitar do passado e do 
futuro, só o fazem no afan egoísta de vir a repousar 
mais depressa, e para isso reforçam febrilmente o 
motor intimo da ambição ? 

Scientistas e poetas, cabotinos e ingénuos, fa- 
lam ainda em juizos pósteros. A Posteridade tomou 
um significado simplesmente religioso, mas, como 
quer que seja — um significado. 

Pois não é um consolo para os martyres acredi- 
tarem seriamente no céo ? Seja a Posteridade uma 
ficção de outra, vida, um novo céo, o consolo ingé- 
nuo dos esquecidos e dos atropellados da vida espi- 
ritual 



— 17 — 

Mas, hoje, os homens intelligentes vão, pouco a 
pouco, descrendo desse mytho humano. 

Em todos os «intellectuaes» começa a haver uma 
pequena dose de arrivismo. Já nem alludo aos que 
são puramente arrivistas, cento por cento, e desses 
anda cheia actualmente a arte, a sciencia, o commer- 
cio, a lavoura, a politica, a sociedade, á vida. 

O especialista confia plenamente em sua desco- 
berta. O escriptor confia seguramente em sua obra. 
Mas a posteridade é, afinal, uma simples palavra e o 
seguro morreu de velho. D'ahi a necessidade de ar- 
chivar-se cada um em vida nos pantheons, nas 
companhias illustres, nos institutos de Immortali- 
dade, nessas casas de seguros de vida subjectiva. 

Assim, o especialista faz-se «entrevistar» pelos 
jornaes e vae desde logo summariando os seus estu- 
dos e as suas experiências, dando a pista certa, ou 
conveniente, para que o jornalista, com uma bôa 
reportagem espectaculosa, desbrave o caminho e 
garanta o juizo da Posteridade. . . 

Com o escriptor, é o mesmo processo. EUe sabe 
que o livro está lastreado de génio, ou de . . . colla. Sabe, 
tem certeza. Entretanto, são capazes de o não abrir. . . 
Ha falta de tempo nas redacções. .. Si o lessem, 
achariam o veio de ouro. Mas, si o não lessem ? 

Por via das duvidas, o escriptor leva pessoal- 
mente o livro ao jornalista. . . E' o primeiro «auto» 
do processo para ã Posteridade. 

Hermes Fontes — Juízos Ephemeros 2 



— 18 ' - 

Si o escriptor é cyiiico e o jornalista é um titere 
(hypothese muito possivel), o autor pede franca- 
mente um artigo elogioso que faça effeito nas «rodas», 
e successo, nas livrarias, ou, á hesitação do jornalis- 
ta, o próprio autor faz o elogio e subscreve, daia 
vénia, com o nome do jornalista, o qual terá vencido 
a primeira etapa em sua carreira de critico. . . 

Si é pudico o novo poeta, philosopho, ou inventor, 
não pede, nem faz: insinua e- informa. Explica o 
programma da obra, o itinerário percorrido, os óbi- 
ces afastados. . . E abre também o seu caminho aos 
«posteros)). . . 

Negar a verosimilhança dessas coisas seria to- 
líssimo. 

Politicos e esthetas, administradores e aulicos, 
todos comprehendem perfeitamente que o rythmo 
actual da vida não comporta aquelles escrúpulos dos 
antigos heróes, só mais tarde desentulhados de sécu- 
los e séculos de esquecimento pela mão generosa de 
pesquizadores altruístas. 

E não só cada um procura montar methodica- 
mente o machinismo da sua gloria, sendo que ai- ^ 
guns fundam verdadeiras repartições de elogio per- 
manente para não se arrefecer a Pyra sagrada ; não 
só instituem habilmente o seu «seguro de vida» espi- 
ritual, como subrepticiamenle buscam desmontar o 
«laboratório» dos collegas, negando-os, diminuindo- 
os, isolando-os. 



— 19 — 

Ahi está porque para cada artista, mesmo dos 
verdadeiros, noventa por cento dos outros artistas, 
também verdadeiros, são uma quadrilha de inca- 
pazes. 

Ahi está porque, no interesse previdente de 
sobreviver, se juntam, não raro, aos três e aos qu-a- 
tro, em intimas associações de auxílios mútuos, ne- 
gando pão e agua aos outros, aos concurrentes á 
ceinture d'or da Posteridade. 

Felizmente, a intellectualidade brasileira con- 
temporânea, porque se affirma forte e nitida, po- 
deria abrir mão desses processos alijatorios, si, aca- 
so, os cultivasse. 

Cada qual deve insinuar os seus méritos, foca- 
lizal-os mesmo, no limite da compostura pessoal e 
da dignidade profissional, sem, todavia, organizar 
allianças defensivas e offensivas, sociedades mor- 
monicas, beneficências combinadas. 

A despeito da acceleração constante dos nossos 
rythmos, o profundo céo tropical nos vocaciona na- 
turalmente para o sonho e para o êxtase. 

Num paiz sem leitores nem editores, somos, ao 
que se diz, um povo de poetas. Poetas quasi sempre 
ruins, sem compenetração própria, sem orientação 
pessoal e que não se cansam de temperar, com ra- 
padura, canella e herva doce, as mesmas sensuali- 
dades hystericas, as mesmas ternuras melómanas. 

Mas, de entre essa legião immensa, que poderia 



— 20 — 

encher a Avenida com um meeiing colossal, ha, sem 
duvida, uns vinte nomes fadados a apreciáveis desti- 
nos e uns três ou quatro que hão de, fatalmente, ser 
lembrados, de hoje a cem annos. 

Esses triumpharão, qualquer que seja o rythmo 

vigente. 

Teria sido possivel eliminal-os in ovo. 

Armado, porém, o surto, é balda antipathica a 
de depennar azas e desmanchar poleiros, porque as 
pennas teriam renascido e as arvores teriam offere- 
cido em seus ramos poleiros naturaes para todos os 
pássaros . . . 

Mas a posteridade deixou de ser obra dos deu- 
ses para ser creação dos homens. 

E' preciso, ainda assim, dignifical-a e exaltal-a, 
de sorte que nunca cheguem á admiração dos nossos 
netos nomes de mentira, figuras de palha, almas 
de empréstimo, heróes de espada de papelão. . . 



A5 TRE5 CU1TURA5 



EM annuncio, ao portal da Sorbonne. esse titulo 
faria curiosidade e sensação. As três cultu- 

ras... Seria o thema de uma conferencia 

encyclopedica, um discurso de omnisciente, que, 
ainda mesmo no mundo da ficção pura, excederia as 
minhas forcas. 

Faltam-me as boas maneiras de cathedratico 
e, mais do que isso, a fundura de estudos e a reser- 
va de idéas, necessárias á solemnidade da these e á 
segurança de sua defeza. 

Sem esse exórdio, não me aventuraria ás consi- 
derações que se vão ler, menos graves do que alegres, 
o que não quer dizer disparatadas. 

As três culturas : Parecerá que são a franceza, 
a ingleza e a allemã, culturas com c e com k, com 
devaneios esotéricos á Bergson, com epilepsias ful- 
gurantes á Nietzsche, culturas a todo sabor, á anti- 
ga e á moderna, culturas. . . 

Bastaria, para o relativo successo do escripto, 
um confronto de creações nas três «frontes» cultu- 
raes, a ingleza, a gauleza e a teutonica, a exemplo de 
uma demonstração de forças nas três linhas frentaes 
da grande-guerra, que ainda é assumpto palpitante. 

E haveria argumentos leves, a 75 francez e argumentos brutos 
a 420 germânico, de modo a preponderar no rol das maravilhas humanas, 
ora, o at- ticismo franco-latino, ora a perspicua sabedoria britannica, 
ora, a pangnostica profundidade tedesca. 

Sou, porém, dos que se não preoccupam com es- 
sa renitência de dar fronteiras á intelligencia e ao 
saber, e a quem sempre tenha repugnado esse dis- 
parate de territorialismo da civilização, submetten- 
do a obra do progresso humano a delimitações pueris 
de raça e terra e estabelecendo no dominio das coisas 
serias o partidarismo aldeão do cravo e a rosa. 

Para mim, não ha sinão uma Cultura — a cultura humana,
 a que, como expressão cosmico-social, 
chamamos a Civilização moderna e á frente da qual 
se tem encontrado pela dedicação orientadora e pela 
capacidade de iniciativa, ás vezes a Allemanha, mui- 
tas vezes a Inglaterra e, quasi sempre, a França. 

Por isso, quando enuncio — as três culturas — 
refiro-me simplesmente áquelle mens sana in corpore 
sano, phrase illustre, de cujo bojo substancioso se 
trifurcaram as três culturas do homem — a physica, 
a intellectual e a moral.